Correio da Cidadania - Colunistas - Gabriel Perissé

Bento XVI, ora pro nobis

Gabriel Perissé

Para o papa, a Igreja não deve perder o latim. É este um dos aspectos do documento que o Vaticano acaba de divulgar: a exortação apostólica Sacramentum Caritatis.

Entende-se a recomendação de Bento XVI. Já era previsível. Não diria que seja uma atitude conservadora ou retrógrada. Do ponto de vista lingüístico, consiste num esforço interessante, embora certamente as motivações do papa sejam mais de caráter litúrgico e jurídico: o latim como idioma sagrado e sinal da unidade e universalidade da Igreja, com base em Roma.

Um pedido explícito: que os seminaristas aprendam a celebrar a missa em latim, ler textos latinos, cantar em gregoriano. Outro pedido: que os católicos saibam rezar ao menos o Pai-nosso e a Ave-Maria em latim, para que não se desliguem da tradição: Pater noster, qui es in caelis, sanctificetur nomen tuum...

O latim revivido seria circunstância menor, embora detalhe significativo para recuperar um modo de ser católico ainda vivo diante dos olhos do papa, modelo que se encontra, isoladamente, em algumas instituições como o Opus Dei e a Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Acredito, no entanto, que o papa seja suficientemente realista para saber que será impossível reimplantar no século XXI hábitos eclesiais da década de 1940...

Outra questão chamou a atenção de quem leu o documento (a mídia colheu esse ponto): a forma como se referiu aos católicos que, tendo se casado na Igreja, divorciaram-se, casaram-se outra vez no civil e continuam orbitando ao redor das paróquias. Trata-se, conforme o texto, de “problema pastoral espinhoso e complexo, uma verdadeira praga do ambiente social contemporâneo que vai progressivamente corroendo os próprios ambientes católicos”.

Na versão latina do documento, soa até bonito ler “plaga hodierni contextus socialis”, mas essa afirmação rotunda fere os ouvidos do nosso tempo. A separação dos casais como calamidade entre católicos e não-católicos. Uma vez mais tenho que admitir uma coisa: o papa está sendo claro, sincero, coerente... e pouquíssimo diplomático. Não lhe interessa afagar a nossa sensibilidade.

Quem conhecia os livros do papa antes de ele assumir a liderança da Igreja católica não ficou admirado com o que leu agora. Estamos diante da Igreja católica em sua face mais ortodoxa. Tudo a ver com a recente condenação dos escritos de Jon Sobrino, teólogo da libertação.

Este é o papa Bento XVI.

Bento XVI, ora pro nob

Gabriel Perissé é doutor em educação pela USP e escritor.
Web Site: www.perisse.com.br

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