
A mídia sabe como as
crianças morrem
Gabriel Perissé
Vimos em todas as emissoras de TV, ouvimos
em todas as estações de rádio, revisitamos em todas as revistas da
semana e em sites. O menino João Hélio morreu no dia 7 de fevereiro.
Imagens reiteradas e comentários insistentes alimentaram um surto de
ira. Em breve, restará uma vaga lembrança nossa e a inapagável dor
da família.
No Brasil, diariamente, morrem crianças de todas as classes sociais,
em grandes centros urbanos ou longe deles, pelos motivos mais
terríveis. João Hélio foi arrastado pelo carro dirigido por
assaltantes. Outras crianças morrem atingidas por balas perdidas.
Outras morrem no ventre materno, vítimas do aborto, ou são
abandonadas em lixeiras assim que nascem. Morrem bebês em
maternidades de quinta categoria. Outras crianças morrem na piscina
“segura” de um prédio ou clube. Nossa revolta será sempre pouca e
impotente para evitar novas mortes horríveis.
A mídia sabe de que modo nossas crianças morrem. Registra, divulga,
vira a página. Nós lemos, ficamos sinceramente horrorizados, e
tocamos a vida.
Morrem crianças dilaceradas por cães ferozes cujos donos se orgulham
de ter essa “arma” em seu quintal. Morrem crianças em desabamentos
causados por chuvas fortes, as mesmas chuvas de todos os anos que,
todos os anos, causam desabamentos...
Há poucos dias, 14 de fevereiro, em Ponta Grossa, uma garota de dois
anos e meio, já hospitalizada, morreu porque não foi removida a
tempo para a UTI. Quantas crianças morrerão por falta de assistência
médica, Brasil afora? Nossa indignação ficaria sem fôlego se
soubéssemos de tudo.
Em março de 2005, uma menina de 2 anos, no Rio de Janeiro, foi
estuprada pelo padastro, e faleceu. Mas quantas outras sobrevivem,
marcadas para sempre pela hediondez de um pedófilo?
No mesmo ano de 2005, um garoto de 5 anos foi picado mortalmente por
jararacas escondidas na piscina de bolinhas de um Mc Donald’s, em
Goiânia. Mera fatalidade? Quem tem filhos sente um frio na espinha.
Crianças do mundo inteiro. A Unicef afirma: a cada hora morre uma
criança torturada pelos próprios pais. A cada cinco segundos,
informa a ONU, uma criança morre de fome em algum lugar do planeta.
Potencializada pela mídia, a morte de João Hélio produziu angustiada
solidariedade. Contudo, basta informar-se melhor para constatar o
quanto nossas crianças estão e continuarão à mercê da violência. Da
violência gerada por outras violências.
Gabriel Perissé é doutor
em educação pela USP e escritor.
Web Site:
www.perisse.com.br
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