Correio da Cidadania - Colunistas - Gabriel Perissé

Breve meditação sobre a anorexia

Gabriel Perissé


No século XIX, retomando uma palavra grega (óreksis), a ciência criou a expressão “anorexia mental”, quadro mórbido em que a pessoa se impõe uma dieta rígida, despropositada, imaginando estar sempre acima do pesado. A palavra grega remetia à idéia de tender a alguma coisa, desejar algo. Anorexia é não desejar, não querer.

Todo não-querer implica um querer. Mesmo sabendo que se trata de situação patológica, nem por isso podemos esquecer que há um querer naquele que não quer. E o que quer aquele ou aquela que afasta de si o alimento? Quer o que outros querem. Quer ter o corpo que os outros querem que ele(a) tenha.

O corpo esbelto é ágil, sobe e desce, vai e volta. Mantê-lo em forma é uma forma de viver, de comunicar-se, de trabalhar, de amar. Não se trata de comer pouco, mas de comer o melhor, nas horas certas, com o aperitivo da alegria, com o tempero da conversa, com a sobremesa da amizade. Alimentação é educação. Elegância é saber escolher... e conviver. “Simpósio”, em grego, significava banquete.

A anorexia é uma espécie de asfixia. Solidão diante do vazio da vida. O peso dos valores está trocado. A balança está desbalançada. Qual a gênese desse estado, dessa falta, desse medo? Quais os primeiros desvios do caminho, tomados por aquele que nada come por medo de engordar? E o que teria ele a ver com o seu contrário, com aquele que engorda além da conta por medo de morrer de fome?

Nas capas das revistas celebra-se tantas vezes o corpo magro, os ossos furando as roupas, quase. Atrizes comemoram o corpo enxuto depois da gravidez. Dietas não faltam. Dicas para emagrecer já! Nas academias, olho aflito no espelho, os atletas da esteira e do haltere correm para o infinito e carregam o peso do mundo. Malham, malham.

Observo sempre o olhar perdido, insondável, de modelos e manequins. Na grande passarela, os corpos magérrimos, magríssimos, macérrimos são prato cheio para os fotógrafos. Modelos são a moda, estão na moda, e de algum modo não estão nem aí. Posam diante de nós. São belos, são enigmas que ninguém precisa decifrar.

A anorexia é a perda de controle, o caso extremo, o assustador. Mas não é incausada. Discordemos da fatalidade. Há contextos e histórias, decisões (mesmo que pela metade). Anorexia tem profilaxia.

 

Gabriel Perissé é doutor em educação pela USP e escritor.
Web Site: www.perisse.com.br

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