
A verdade, nada além da
verdade
Gabriel Perissé
A política é o campo privilegiado da
mentira. Ou em outros termos: a verdade dos que militam na arte de
governar... se ouvirmos e lermos atentamente suas declarações, notas
oficiais, discursos, entrevistas, é apenas a última versão de um
relato mal relatado.
O conceito clássico de mentira é dizer o contrário do que se está
pensando, com a intenção de enganar os outros. O jornalista Luiz
Cláudio Cunha, em 2005, com a autoridade de quem votou três vezes em
Lula para que chegasse à presidência, escreveu com todas as letras:
“o sr. Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva é um
mentiroso”.
Esqueçamos os detalhes. Virgens, na zona, só as que são do signo,
como diz a piada. O que aconteceria se Lula não mentisse? Imaginemos
a cena. Toda a mídia convidada. Coletiva na Granja do Torto para
desentortar histórias: “Efetivamente, eu sabia de tudo, e sei mais
ainda. Querem ouvir a verdade?”.
Voltemos aos arquivos do passado. O Google (que Deus proteja esse
instrumento de pesquisa!) pode levar-nos em um minuto a documentos
jornalísticos modestos, mas significativos. O Jornal do Commercio
(Recife, 5 de maio de 1998) registrou:
O provável candidato do PT à presidência da República, Luiz
Inácio Lula da Silva, defendeu o saque de comida por parte dos
flagelados da seca e acusou o presidente Fernando Henrique Cardoso
de ser “demagogo” e “mentiroso”, durante visita a duas das cidades
do Ceará mais atingidas pela seca: Jaguaruana e Quixeramobim,
localizadas na região do sertão central.
O candidato Geraldo Alckmin afirma e reafirma: “No meu governo não
teve ladrão”. E agora? Como duvidar da frase repetida com tanta
seriedade? Ou terá a frase ficado incompleta: “... não teve ladrão
que deixasse pistas...”? E quem disse o que mesmo sobre a Nossa
Caixa? E que outras caixas-pretas haverá que precisariam ser
abertas?
Outro caso. Criticou-se José Serra por ter mentido e rompido o
compromisso de não disputar outro cargo antes de cumprir o mandato
de prefeito de São Paulo. Serra até assinou documento, jurando que
não abandonaria a prefeitura. Mentiu, e será eleito governador.
As pernas da mentira cresceram. É difícil alcançá-la. Jornais, TV,
sites, blogs divulgam as versões de uns e outros. Já não sabemos
quem está mentindo melhor. Ou melhor... mente com maestria aquele
que consegue nos enganar (consegue?), dizendo verdades.
Gabriel Perissé é doutor
em educação pela USP e escritor.
Web Site:
www.perisse.com.br
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