Correio da Cidadania - Colunistas - Gabriel Perissé

A linguagem vai longe

Gabriel Perissé


As palavras dizem mais do que dizem. Ou dizem o que jamais saberíamos dizer...

Tenho a péssima virtude de ouvir a conversa alheia. No metrô, no ônibus, dentro dos elevadores, num restaurante... Não é espírito de fofoca. É espírito de pesquisa acadêmica. Pesquisa sociológica. Pesquisa lingüística. Pesquisa em sentido amplo.

Outro dia, numa dessas abordagens ao vivo do falar cotidiano, deparei com a frase tão simples, de uma moça à sua colega: “Ah, ele é um bobo!”.

À primeira vista, o bobo ausente estava sendo xingado de bobo. Bobo, boboca, talvez babaca. Aquele que faz bobices. Fala bobagens. Como diziam os latinos: balbus. Bobo porque balbucia baboseiras, se atrapalha todo. Bobo, xingamento leve. Bobalhão seria pior?

Mas bobo também pode ser aquela figura que animava a vida do rei e seus puxa-sacos. O bobo da corte. O truão. O bufão. O bobo profissional. Aquele que se faz de bobo para sobreviver, e, em meio a mímicas e gargalhadas, vai cutucando a consciência dos poderosos. Sem fazer alarde, fazendo. Sem dar nas vistas, expondo-se. Entre caretas e graças, o bobo é mais esperto do que o soberano. Neste caso, a moça estaria elogiando alguém que, de bobo, nada tem.

Bobo, para quem gosta das brincadeiras do futebol informal com os amigos, é aquele que fica no meio de um círculo, tentando interceptar a bola que outros prováveis bobos trocam entre si. O bobo vive correndo atrás da bola, desesperado. Tem objetividade. Sabe o que quer. O bobo anseia deixar de ser bobo.

Bobo pode ser apenas aquele camarada frívolo, superficial, desligadão, incapaz de uma preocupação mais profunda. Fica por aí, de bobeira, olhando a vida passar, esperando a morte da bezerra, cara de bobo. Vota em qualquer um. Vai com qualquer um. Vê qualquer canal de TV. Qualquer coisa está ótima. Vida boba.

Ainda temos um outro bobo. O bobo bonzinho. O bobo legal, puro, simplório, que não aproveita as oportunidades da vida. Que leva rasteira e ainda pede desculpas. Que ri sozinho, na desgraça. Bobo que não sabe enganar. Que se engana diariamente. Talvez pense que irá direto para o céu. Outro engano: no purgatório perderá a ingenuidade.

Mais um sentido para “bobo” — o bobo insignificante, mero adjetivo. Um machucadinho bobo, uma pergunta boba, um texto bobo.

A linguagem é que não é boba nem nada.

 

Gabriel Perissé é doutor em educação pela USP e escritor.
Web Site: www.perisse.com.br

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