
Aulas de filosofia
Gabriel Perissé
Segundo o Inep, temos quase oito milhões
de estudantes no ensino médio. Oito milhões de adolescentes e jovens
que olham para o futuro. Estudando, poderão obter empregos dignos?
Concluindo essa etapa, ingressarão na universidade?
Mas nem só de perguntas pragmáticas é feito o mundo. O ministro da
Educação, Fernando Haddad, que tem formação em filosofia, sabe o
quanto é fundamental para esses jovens aprender a pensar em
profundidade, e por isso homologou a decisão do Conselho Nacional de
Educação (CNE): a disciplina agora é obrigatória nas escolas públicas
e privadas.
A pergunta, portanto, é outra: teremos condições de ensinar a pensar?
Imaginemos: oito milhões de jovens brasileiros pensantes, capazes de
discernir os argumentos convincentes dos discursos manipuladores;
capazes de analisar as situações do cotidiano, não sob o impulso dos
hormônios, mas com a energia dos neurônios!
Nemo dat quod non habet... ninguém dá aquilo que não tem. Professores
pensantes para que os alunos se tornem seres pensantes. Aulas de
filosofia, urgentemente, para quem vai ministrar aulas de filosofia.
Pois uma coisa é o “filosofês”, desdizendo o que deveria dizer; uma
outra coisa é juntar o “eu acho” ao “vai cair na prova”... e outra
coisa mesmo é refletir sobre todas as coisas.
Acima de todas as coisas, a filosofia como exercício, como pergunta
inquieta, que não se restringe ao questionar pelo questionar.
Filosofia também não é mera história da filosofia. Quero saber quem
foi Aristóteles, e o que ele escreveu. Quero saber quem foi
Kierkegaard, e como influenciou pensadores do século XX. Quero
estudá-los, sim, mas, antes de tudo, pensar, apoiando-me nos ombros
dos gigantes: Kierkegaard, Aristóteles...
Pensar filosoficamente. Analisar a violência, por exemplo, superando
as respostas prontas: “pena de morte!”, “mais investimentos!”, “não
tem mais jeito”, “construir novos presídios”... Filosofia tem ojeriza
a soluções milagrosas, frases de efeito, reducionismos.
Refletir sobre os fanatismos religiosos, que desmoralizam grandes
intuições e verdades do cristianismo, do judaísmo, do islamismo. Há,
entre os oito milhões de estudantes do ensino médio, vítimas em
potencial dos fanatismos vigentes.
Refletir sobre as drogas e outros caminhos vertiginosos. Os processos
de vertigem, ensina o pensador espanhol Alfonso López Quintás, começam
oferecendo tudo (alegria, sucesso, conquistas...), e no fim levam-nos
à solidão, ao desespero.
Já os processos de êxtase pedem muito (esforço, consciência,
coerência...) e no fim (que não tem fim) entregam muito mais:
felicidade.
Gabriel Perissé é doutor
em educação pela USP e escritor.
Web Site:
www.perisse.com.br
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