Correio da Cidadania - Colunistas - Gabriel Perissé

A experiência é um palito de dentes

Gabriel Perissé


Ouvi de um professor amigo: “a experiência é como palito de dentes, pessoal e intransferível”. Muita sabedoria em palavras tão simples. Metáfora singela que vale por um tratado filosófico.

A palavra “experiência” é mais perigosa do que se pensa. Tem a ver, etimologicamente, com expertus: aquele que experimentou, que se expôs ao perigo de errar (e de acertar!), que foi comprovar hipóteses, verificar suspeitas, lançar-se ao estudo vivo da realidade. E, nesse ato de busca, pôs-se em risco de conhecer o novo, o diferente, o inusitado, viveu o periculum, palavra latina que podemos traduzir como “tentativa”. A tentativa e o perigo levarão a vitórias... e fracassos.

É nos experimentos, nas tentativas e tropeços que aprendo e me torna um peritus.

O perito é um pouco mais sábio, pois saboreou o que experimentou: o amargo, o doce, o salgado, o azedo, o agridoce, e até mesmo o insosso da vida. A imperícia, por outro lado, resulta deste não querer passar por nenhum perigo, deste permanecer na segura ignorância.

O perito sabe dos perigos. “Viver é perigoso”, repetia Riobaldo Tatarana, personagem de Guimarães Rosa. Viver é perigoso? Por quê? Ensinar também é perigoso? Viver e ensinar, dois perigos muito semelhantes. Porque o ensinar e o viver implicam a travessia. A travessia do conhecido para o desconhecido, do acabado para o inacabado, do assegurado para o inconcluso, do permanente para o incompleto.

Riobaldo diz: “O senhor escute meu coração, pegue no meu pulso. O senhor avista meus cabelos brancos... Viver ― não é? ― é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo”. Esta passagem está quase no final do livro Grande sertão: veredas, depois que o narrador contou sua história, atuou como professor deste “senhor”, deste ouvinte que somos nós, leitores.

Viver é perigoso, e nele aprendemos. E quem aprende recebe a missão de ensinar.

O professor ensina a partir de sua experiência. Experiência de leitura, reflexão, trabalho. Experiência que faz nascer cabelos brancos, mesmo para o mestre que ainda não os tem. O professor experiente torna-se perito em humanidade, sem necessidade de nenhum pedagogês.

O professor experiente transborda. Comunica o que sabe e comunica-se como pessoa. Sua vida de experiências vivas, sua vida engendrada na observação, numa interpretação original dos acontecimentos, é o conteúdo de suas aulas.

 

Gabriel Perissé é doutor em educação pela USP e escritor.
Web Site: www.perisse.com.br

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