
A gratuidade, o lúdico,
o contemplativo
Gabriel Perissé
Onde encontrar espaço para o gratuito, o
lúdico e o contemplativo? Na escola? Na mídia? No shopping? Na
família? Na amizade? Na religião? Na arte?
Na escola, lugar em que esses três valores deveriam reinar... a lógica
dominante tem sido outra. Exige-se produtividade, cobram-se
resultados. O pai de uma criança de 6 anos perguntava aos
coordenadores do colégio em que estava matriculando sua filha: “E ela
vai ser preparada para o vestibular?”. E o mais triste foi a resposta:
“Com certeza!”.
As faculdades e universidades, em lugar de anunciar em panfletos e
outdoors atrativos como a curiosidade intelectual, o amor à pesquisa,
a busca da verdade, o prazer de estudar, o aprendizado pelo
aprendizado... acenam com a oportunidade de vencer no mercado de
trabalho!
O lúdico muitas vezes reduz-se à jogatina, à busca da sorte, atalho
salvador em meio às dificuldades financeiras. Bingos, mega-sena... e
acompanhamos ao longo da Copa os sorteios da “Seleção do Faustão”, uma
bela armação, segundo alguns.
No dia-a-dia, qualquer amostra grátis é mera isca para fisgar
clientes. O gratuito é impensável, vítima dos nossos risos cínicos.
A religião, “lugar” privilegiado da contemplação, ato de entrega
incondicional ao que transcende as preocupações sobre juros e cotações
do dólar, aí também é onipresente a relação custo-benefício. Até mesmo
Deus, empregado dócil dos televangelistas, submete-se à teologia da
prosperidade, e exorciza o povo de suas dívidas no cartão de crédito.
As editoras temem a poesia, produto ingrato que tão poucos lêem entre
os que já lêem tão pouco.
Não vou levantar a velha bandeira dos idealistas contraditórios. Estes
são os primeiros a perder a cabeça quando finalmente admitidos
naqueles mesmos ambientes que um dia apostrofaram. O gratuito não
sobrevive sem um salário, o contemplativo precisa de pão, o lúdico
exige base material.
Talvez o gratuito, o lúdico e o contemplativo estejam acuados no
último reduto, no mundo dos sonhos. Não aqueles sonhos de consumo,
sonhos de sucesso, sonhos de vitória.
No sonho que ninguém pode fotografar, a não ser o artista. No sonho
que ninguém pode comercializar ou interpretar. No sonho que podemos
esquecer, embora saibamos que sonho houve. No sonho em que o fogo
consome todas as coisas, e do meio das chamas um rosto se mostra, e
esse rosto nos diga em silêncio que tudo está ameaçado... mas nada
perdido.
Gabriel Perissé é doutor
em educação pela USP e escritor.
Web Site:
www.perisse.com.br
Clique
aqui para comentar este artigo.
Home |
 |