
Brasil e Eritréia de
mãos dadas...
Gabriel Perissé
A mídia, não faz um mês, trouxe a
humilhante notícia. Segundo a Unesco, o Brasil é o 16º colocado em
repetência escolar, lado a lado com Moçambique e... Eritréia. Só não
estamos piores do que Anguilla (Caribe), Nepal (Ásia) e outros 12
países africanos: Benin, Guiné Equatorial, Togo, Guiné-Bissau, Chade,
Congo, São Tomé e Príncipe, Camarões, Ilhas Comores, Burundi,
Madagascar e Gabão.
Eritréia. País do nordeste africano, ex-colônia italiana. Território
predominantemente desértico. Depois de 30 anos vivendo conflitos
armados com países vizinhos, encontra-se semidestruído. Foram mais de
cem mil mortos nesse período. Possui hoje cerca de 4 milhões de
habitantes. Metade deles analfabetos.
Pois bem, Brasil e Eritréia estão de mãos dadas neste aspecto da
educação: a repetência escolar. Compreende-se a situação do país
africano. Resta-nos compreender por que enfrentamos situação
semelhante...
Haverá culpados que possamos crucificar? Uns dirão que muitos
educadores estão despreparados para educar. Outros dirão que muitos
governantes não estão interessados em governar para melhorar a
educação. Sobrarão acusações para os alunos, para a família dos
alunos, ou para a TV da família dos alunos. E alguns, empolgados,
jogarão a história no banco dos réus, lembrando os modelos
educacionais dos jesuítas, dos iluministas, dos positivistas, dos
fascitas e dos neoliberais, todos eles perversos...
Trocadas as devidas ou indevidas acusações, o problema não se desfaz.
Aumenta. Apesar da boa vontade de milhares de professores brasileiros,
não obstante as pesquisas pedagógicas, não obstante os investimentos
(podiam ser maiores e mais bem empregados, certamente), não obstante a
adoção, em alguns estados, da progressão continuada na forma de
ciclos, conforme a LDB de 1996... Brasil e Eritréia chegaram juntos.
Reprovar não resolve dificuldades de aprendizado. Agrava. A reprovação
não estimula. Afunda. Réprobos são os banidos, os detestados, os
infames. Réprobos eram, na linguagem teológica, os condenados ao
inferno. Mas como salvar os que chegam à quarta, quinta ou sexta série
sabendo apenas desenhar seus nomes?
Não estamos em guerra, mas assistimos ao espetáculo assustador da
violência urbana. Nossos maiores desertos não são de ordem natural,
são sociais: pessoas desempregadas, subempregadas (quantos professores
não o são...?), famílias desestruturadas, moradia e transporte
desumanizantes, alimentação precária, sistema de saúde doente, falta
de acesso aos livros...
A repetência escolar é conseqüência de uma constelação de problemas.
Palavras de afeto ou de ódio não poderão resolvê-los... Menos ainda as
demagógicas.
Gabriel Perissé é doutor
em educação pela USP.
Web Site:
www.perisse.com.br
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