
Apenas um pequeno traço
horizontal
Gabriel Perissé
Apenas um pequeno traço horizontal, mas
quanta dor de cabeça para revisores conscienciosos, jornalistas
cuidadosos, escritores neuróticos... e para todos aqueles que gostam
de colocar os pingos nos is e ainda prezam o ponto-e-vírgula!
Eduardo Martins, com a ajuda da coordenadora editorial Márcia Lígia
Guidin, publicou pela Editora Manole o livro Uso do hífen, em
que apresenta considerações sobre a lógica nem sempre lógica do
traço-de-união. A propósito, segundo Dad Squarisi, o tracinho é
castigo de Deus: “Deus pegou todos os hífens em uma mão, na outra
tinha um mundo de prefixos e jogou tudo para o alto. Alguns prefixos
pegaram hífen, outros não pegaram, palavras se juntaram sem querer e
esse é o problema, tem que consultar o emprego do hífen na gramática
ou dicionário”.
Aos olhos de muitos “usuários” do idioma que não perdem o sono com
questões ortográficas, eis a minudência mais desprezível. Para que
gastar nosso tempo com distinções arbitrárias que levam a escrever
intrapulmonar sem hífen e intra-ocular com hífen? Não dá tudo na
mesma?
Não, não dá na mesma. Por vezes, faz toda a diferença. Um “bom-dia” é
educada saudação, mesmo que de bom o dia nada tenha. Você não viverá
necessariamente um bom dia só porque recebeu vinte “bons-dias” ao
acordar. Mas... não é prazeroso distinguir alhos e bugalhos?
E onde fica o respeito às normas? O estilo nelson-rodriguiano, muito
longe do neo-escolástico, horrorizava os papas-hóstias... Não é
gostoso salpicar os hífens com a segurança de quem faz o que deve, à
luz dos sagrados preceitos da norma culta?
No Brasil-Colônia não havia Bolsa-Família e os famosos recursos
didático-pedagógicos, mesmo para os sem-terra, eram um
deus-nos-acuda... O período não possui o menor sentido, mas os hífens
corretamente usados lhe conferem certa credibilidade...
Hífen é um grande pormenor, e provoca problemas gastrointelectuais
naqueles que preferem escrever bem. Um franco-atirador, habituado a
produzir textos à queima-roupa, talvez não esteja nem aí com este
ínfimo tracinho, mas aqueles que não gostam de ficar em saia-justa
sabem que o hífen não é uma coisa à-toa.
O oportuno trabalho de Eduardo Martins vale por si mesmo, certamente,
mas sua efetiva utilidade, é bom frisar, dependerá do nosso
desconfiômetro. Tal como o dicionário — pai dos inteligentes —, esse
recém-publicado manual do hífen requer curiosidade, exige-nos a
vontade de acertar, o eterno impulso da dúvida.
Gabriel Perissé é doutor
em educação pela USP.
Web Site:
www.perisse.com.br
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