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Desenvolvimento
Sustentável
Danilo Pretti Di Giorgi
Assim como manejo florestal, desenvolvimento sustentável é mais um
daqueles termos mágicos, que têm poder de mover muitas pessoas, de
fazer dinheiro e fama, e de ocultar a dura realidade. São, porém,
vazios de conteúdo na maior parte das vezes em que são usados.
“Desenvolvimento sustentável” é oco sempre que aplicado do ponto de
vista de negócios, pois o capitalismo, o modelo econômico vigente na
maior parte do planeta, não é sustentável por definição, uma vez que
exige expansão exponencial contínua, e não há mágica que faça esse
sistema vir um dia a sê-lo.
O termo foi consagrado em 1987 pela Comissão Mundial sobre o Meio
Ambiente e Desenvolvimento, também conhecida como Comissão Brundtland.
Foi definido e é aceito hoje como “aquele [modo de desenvolvimento]
que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade
de as gerações futuras atenderem às suas próprias necessidades”.
Muito bem, releia com atenção a definição acima. Agora, a pergunta que
coloco é a seguinte: é possível aplicar esse belo ideal na vida real e
na maior parte dos elementos do cotidiano, sem hipocrisia e de forma
integral e ainda assim evitar um colossal impacto no sistema
capitalista?
Vejamos. Primeiro, quando falamos em “gerações futuras”, estamos nos
referindo a todas elas, aos tataranetos dos tataranetos dos nossos
tataranetos, certo? Estudos mostram, porém, que o homem já utiliza os
recursos naturais oferecidos pela Mãe Terra num ritmo muito superior à
capacidade do planeta de repô-los.
O manejo florestal, já muito debatido neste espaço, é uma das áreas
onde o termo “sustentável” mais aparece. Nada mais é que uma forma de
continuar destruindo a floresta de maneira mais “aceitável”. A
proposta é mais ou menos a seguinte: vamos continuar arrancando essas
árvores tão lucrativas, mas, como agora esse papo de ecologia vive
atrapalhando nossos negócios, para não ter que parar de lucrar,
contratamos meia dúzia de biólogos e engenheiros florestais que vão
definir parâmetros – nunca devidamente comprovados – que demonstrem o
quanto dá para matar da floresta de forma que ela não sinta tão
duramente o impacto. Estes profissionais gabaritados estarão em nossa
folha de pagamentos e, mesmo que os parâmetros não sejam seguros – e
quem afirme que eles são 100% confiáveis estará faltando com a verdade
–, faremos um marketing danado em torno disso e assim as pessoas podem
dormir tranqüilas, com a certeza de estarem adquirindo um produto
“verde”.
Concorre para o sucesso da estratégia a menção de prazos longos tendo
em conta as nossas vidas, como ciclos de corte de 25, 30 ou 40 anos,
os quais, no entanto, são ínfimos do ponto de vista das espécies
florestais e da maturação dos ecossistemas.
A seguir, transcrevo um parágrafo de um recente “Relatório de
Sustentabilidade” de uma grande empresa do agronegócio, que ilustra
bem a idéia central deste artigo:
“A sustentabilidade é um fator que facilita o acesso ao capital,
permite reduzir custos e maximizar retornos de longo prazo do
investimento, previne e reduz riscos, além de estimular a atração e a
permanência de uma força de trabalho motivada, entre outros aspectos.
Esses mesmos elementos contribuem para fortalecer nossa reputação,
credibilidade e imagem, concorrendo assim para manter e aumentar o
valor da Empresa para os acionistas e a sociedade em geral”.
Como é possível claramente constatar, não há nada escondido, está tudo
às claras: a preocupação com o meio ambiente é simplesmente retórica,
uma vez que o capitalismo percebeu que a questão ambiental poderia
atrapalhar os negócios. Não existe a verdadeira compreensão da
questão, ou, se existe, as razões para preservar estão perdendo para
as razões para lucrar. Compreender os porquês da preservação
significaria aceitar que não há possibilidade de compatibilidade entre
o nível atual de consumo e a dita sustentabilidade. Se todos na Terra
tivessem um padrão de consumo semelhante ao dos países desenvolvidos,
o caos chegaria bem mais rápido ou, possivelmente, já estaria
instalado.
Ainda que as desigualdades mundiais continuem tal como estão (o que
parece mais provável), excetuando-se a ascensão da China, não há
recursos suficientes para alimentar o sistema por muito tempo. Mesmo
que todas as empresas adotassem os mais rigorosos controles das “ISOs
14000 da vida” sobre os danos que causam ao meio ambiente. Tal como a
floresta, que viveria alguns anos a mais com o manejo florestal, mas
terá morte tão certa quanto teria sem o manejo, o meio ambiente não
pode suportar eternamente um sistema que tem por prerrogativa
consumi-lo até que não reste nada que não possa ser convertido
diretamente em dinheiro – seja madeira, metais, água - ou que não seja
veículo para se fazer dinheiro.
O irônico de tudo isso é perceber que o capitalismo é um sistema
auto-destruidor (e estamos falando aqui apenas das questões
ambientais), que ignora este fato dado o seu caráter imediatista. Mas
não se pode perder tempo com questões menores... O que conta aqui é a
multiplicação do o vil metal.
Danilo Pretti Di Giorgi é jornalista.
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