Correio da Cidadania - Colunistas - Gabriel Perissé

Brasil, fatos e interpretações

Gabriel Perissé


Os jornalistas José Arbex Jr. e Nilton Viana organizaram o livro recém-lançado É preciso coragem para mudar o Brasil – Entrevistas do Brasil de Fato, pela editora Expressão Popular. São 217 páginas por um preço realmente popular, tendo em vista as circunstâncias do mundo editorial hoje: R$ 13,00.

Brasil, de fato. Entrevistas quentes no calor da hora. Fatos e interpretações. Frases antológicas. De Celso Furtado: “o Brasil é um país de construção imperfeita”. Do geógrafo e historiador Manuel Correia de Andrade: “não se faz nada no Brasil sem o apoio da Igreja”. De Augusto Boal: “hoje, é quase impossível ser artista e permanecer no mercado cultural”.

Pouco espaço para ambigüidades e paninhos quentes. Afora Marilena Chauí e Leonardo Boff, quase... talvez... meio insatisfeitos com o governo Lula, a maioria dos brasileiros entrevistados expressa sua decepção. Fábio Konder Comparato denuncia a ausência de um projeto de país. D. Pedro Casaldáliga reconhece que o governo é fraco. Plínio Arruda Sampaio mostra as razões que o levariam, poucos meses depois, a romper com o PT. O advogado Gofredo da Silva Telles Jr. afirma, com todas as letras e sem medo de errar, que estamos numa pseudo-democracia.

O livro é um documento importante, inquietante. Reúne vozes de gente que participou intensamente da realidade política brasileira nas últimas décadas, de gente que, exilada ou isolada em outros tempos (ou ainda agora), precisa ser ouvida. Gente que depositou ou ainda deposita suas esperanças em Marx, em Jesus Libertador, no povo ou em Lula. E que sente, como todos nós sentimos, o peso das lentidões, da demagogia, a estreiteza dos caminhos.

Não é fácil transformar o Brasil. Fazê-lo à imagem e semelhança de ideais um pouco mais elevados. Oscar Niemeyer desabafa — o mundo é uma merda.

Eu não iria tão longe. O Brasil, de fato — viver no Brasil, brincava Tom Jobim, “é uma merda... mas é bom”. Contudo, para muitos é horrível viver no Brasil. Viver (sofrer) os fatos que vivemos no Brasil.

Para não recair na queixa pela queixa, precisamos olhar os fatos e arriscar interpretações. Não basta constatar. Esta é a lição dos entrevistados. Combatem, defendem, opinam, demonstram, acusam. Li o livro viajando de ônibus entre São Paulo e uma cidade do interior. Metade na ida pela manhã. A outra metade na volta, à tardinha. À noite, sonhei que estava acordando. De fato.

 

Gabriel Perissé é doutor em educação pela USP e professor do mestrado em educação da Uninove-SP. Web Site: www.perisse.com.br

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