
Tudo, tudo pela pátria
Gabriel Perissé
Do que são capazes nossos candidatos!
Assisti, em êxtase, ao governador Geraldo Alckmin chupar picolé de
chuchu no programa do Ronnie Von (e ele ainda afirmou que tem gosto de
limão... ou seja, chuchu não tem gosto mesmo).
Em outras eras, meus pais votaram em Jânio Quadros, que fazia campanha
erguendo uma vassoura (promessa de varrer do país a corrupção, a
bandalheira) e, durante os discursos, comia sanduíche de mortadela e
pão com banana para demonstrar sua identificação com os pobres.
Lula, recentemente, fez o sacrifício de abraçar o presidente Bush e
afirmar em alto e bom som que o grande estadista é “aliado do Brasil”.
Deveríamos reeleger Lula pelo ato de heroísmo. O quanto não terá
sofrido para interpretar esta cena.
Em 1994, Fernando Henrique Cardoso montou num jegue em Alagoas,
arriscou uns passos de forró em Pernambuco, tomou garapa no Pará, o
“vinho do amor” em Minas Gerais e posou com poncho e chapéu de peão no
Rio Grande do Sul. Tudo, tudo pela pátria.
Fernando Collor fazia o perfil atlético, vitorioso: andou de jet-ski,
comandou avião de caça, pilotou uma Ferrari a 200 quilômetros por
hora, jogou futebol, vôlei e tênis. O candidato olímpico!
Nas campanhas, candidato que se preza beija os eleitores, abraça todo
mundo, chora quando ouve crianças cantando, abençoa bebês, aplaude o
povo, sua a camisa, planta árvore, sobe montanhas, visita favelas, põe
o pé na lama, experimenta qualquer prato típico (e acha ótimo), toca
os doentes — tudo, tudo pela pátria.
Toda esta performance para nos transmitir a crença de que encontramos
o líder certo, o deus que se encarnou para salvar o país. O líder
político vem à terra realizar milagres que ele mesmo não realizou
antes. Messianicamente, condena os opositores e promete o paraíso —
empregos, saúde, educação, segurança, alimento. Sua pregação é
perfeita, mais ainda quando tem a seu lado um redator publicitário.
Profeta de si mesmo, o candidato não se permite alimentar dúvidas.
Dúvida é coisa do Demo... não da democracia. Candidato veio para
vencer.
Clima de campanha. Alguns candidatos ressuscitaram das cinzas. Outros
morreram antes da hora. Começam todos a treinar suas frases de efeito.
Chegou o tempo das acusações e defesas, ocasião de mostrar serviço,
real ou fictício.
Sacerdotes do povo, intérpretes fidedignos de nossos mais profundos
anseios, os candidatos ameaçam andar sobre as águas.
Gabriel Perissé
é doutor em educação pela USP e professor do mestrado em
educação da Uninove-SP. Web Site:
www.perisse.com.br
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