
A livraria do crioulo
doido
Gabriel Perissé
Tudo começou quando encontrei Ovídio na
estante de cinema e Signos em rotação, de Octavio Paz, entre os livros
sobre horóscopo. Estarei endoidecendo?
Fragmentos do espólio, de Nietzsche, uma seleção de textos feita por
Flávio Kothe (Editora UnB), estava na seção de Direito de Família,
cercado por tratados sobre sucessão e heranças. A língua absolvida, de
Elias Canetti, também convivia com obras jurídicas. Outros de Canetti,
Uma luz em meu ouvido e O todo-ouvidos, vi com meus próprios olhos —
foram guardados com vários compêndios de Otorrinolaringologia.
O que estaria fazendo na seção de Música o Órganon de Aristóteles? E o
Sol negro de Julia Kristeva, estudo sobre a depressão e a melancolia,
por que acabou na seção de Meteorologia? E o Homo aestheticus de Luc
Ferry, ombro a ombro com os livros sobre Sexologia, particularmente
sobre homossexualidade?
O livro de areia, do meu querido Borges, perdido na estante de livros
voltados para a Mineralogia. O continente submerso, de Leo Gilson
Ribeiro, ao lado de livros esotéricos que falam de Atlântida. Escrito
sobre um corpo, de Severo Sarduy, entre os que explicam como fazer
tatuagens!
As últimas notícias do mundo, romance póstumo de Anthony Burgess, na
estante de Jornalismo. Mais um livro de Elias Canetti, Massa e poder,
na de Culinária. O dorso do tigre, de Benedito Nunes, em que há um
ensaio belíssimo sobre Clarice Lispector, na estante de Zoologia. A
náusea, de Sartre, na estante de Medicina... pois certamente se trata
de um problema que a ciência resolverá.
De Alvin Toffler, Choque do futuro, no meio de livros sobre serviços
em eletricidade. História da beleza, de Umberto Eco, dividindo espaço
com livros e manuais sobre cirurgia plástica. O castelo, de Kafka,
absurdamente plantado na seção de Arquitetura. Flores do mal, de
Baudelaire, claro, só poderia estar na seção de Jardinagem.
Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, competia com os de
Oftalmologia. O guardador de águas, de Manoel de Barros, com os de
Hidrologia. A hora da estrela, de Clarice, com os de Astronomia.
Fui procurar o livreiro. Que bagunça é esta? Como pode tratar assim os
seus clientes? Oferecer-lhes a confusão, a desordem, a loucura?
Olhou-me, sorriu. Tinha nas mãos um exemplar de Cem anos de solidão,
de Gabriel García Márquez. Disse para si mesmo: “E este vai para a
seção de Auto-ajuda”.
Gabriel Perissé
é doutor em educação pela USP e professor do mestrado em
educação da Uninove-SP. Web Site:
www.perisse.com.br
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