Correio da Cidadania - Colunistas - Gabriel Perissé

Ao folhear livros didáticos...

Gabriel Perissé


Dia 27 de fevereiro é Dia Nacional do Livro Didático. Livro estratégico. Livro feito para ensinar e para ajudar o professor a ensinar.

Mas o que ensinam os livros didáticos? Os livros didáticos têm didática? São confiáveis?

Existem livros didáticos problemáticos, com referências defasadas. Num deles, vi a ilustração de um telefone com dial giratório. Estamos hoje discutindo TV digital no Brasil, tendo acesso a celulares multifunções, e o telefone do livro continua sendo o da década de 50?

Num livro de geografia, informava-se que o “Porto de Recife” era um “acidente geográfico”. Acidente mesmo é uma criança ser submetida a esse tipo de “imprecisão”...

No texto de um livro de história, os alunos liam que havia muita “sugeira” em certas ruas de certas cidades do passado. Certamente, há algo de podre nesse tipo de livro didático. O que passa pela cabeça dos seus editores? Que tipo de revisão fazem?

Errar é humano, já nos lembrava recentemente o presidente Lula, mas não é humano difundir o erro, permitir o erro, tratar o livro didático como coisa qualquer. É desumano para com os estudantes. É golpe baixo contra a educação. Contra o país.

Mas agora também precisamos olhar para a internet como “livro” didático, na medida em que se tornou fonte de consultas para pesquisas escolares, e não só escolares. Cabem aqui todos os alertas possíveis. Por sua natureza, por sua liberalidade, a web esconde armadilhas.

Um jornalista de prestígio como Josias de Souza escreveu na FolhaONLINE, referindo-se a um momento em que Lula vetara aumento de 15% aos funcionários do Legislativo: “Em sessão conturbada realizada no dia 31 de setembro, o Congresso derrubou o veto”. O problema é que o mês de setembro tem apenas 30 dias... Não se trata de caso isolado. Muitos sites criam novas datas: 31 de novembro, 31 de abril e até 30 de fevereiro.

Outra armadilha são textos atribuídos a vivos ou mortos famosos. Já disseram, e foi propalado, que Carlos Drummond de Andrade teria escrito um medíocre poema cujo primeiro verso é — “Mesmo antes de nascer, já tinha alguém torcendo por você”. Clarice Lispector, Gabriel García Márquez, Charles Chaplin foram outras vítimas desses boatos virtuais.

Professores existem para isso — ensinar a averiguar, conferir, criticar. Livros e sites não funcionam sozinhos. O autodidatismo, por mais autônomo que seja, não dispensa educadores.

 

Gabriel Perissé é doutor em educação pela USP e professor do mestrado em educação da Uninove-SP. Web Site: www.perisse.com.br

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