
Cães violentos... e a
mídia nem ladra nem morde
Gabriel Perissé
Bastam alguns cliques na internet para
constatar que a mídia registra, com a frieza de quem apresenta
relatórios objetivos, ataques de cães violentos em diversos pontos do
país.
Em setembro de 2005, em Ponta Grossa (PR), menino de 2 anos foi morto
por um pitbull. Também no Paraná, em maio de 2005, mulher de 58 anos,
residente na região metropolitana de Curitiba, foi morta por seu
próprio cão, da raça rottweiler. No mesmo estado, na cidade de
Londrina, em 6 de janeiro deste ano, bebê de 17 dias morreu após ser
atacado pelo cão da família, que por algum motivo era chamado de “Rambo”.
Em Campo Grande (MS), em novembro de 2005, menina de 7 anos foi
atacada por um pitbull. Mordidas na cabeça e nas costas. Ainda se
encontra sob cuidados médicos. Também em novembro, na mesma cidade, um
garoto de 8 anos foi cruelmente atacado por duas cachorras da raça
pitbull. A criança passou por diversas cirurgias plásticas, com
intervenções no rosto, braços e pernas.
Em 12 de janeiro agora, menino de 5 anos foi atacado pelo pitbull de
um vizinho, em Praia Grande, litoral paulista. As mordidas provocaram
ferimentos nas costas, braços, pescoço e cabeça. Quase quinze dias
depois, em 26 de janeiro, um menino de 3 anos foi atacado por um
pitbull, em São José dos Campos (SP). Ferimentos graves nas mãos e na
cabeça. Mais recentemente, no dia 3 de fevereiro, um menino de 6 anos
foi atacado por um pitbull, em Belo Horizonte. Ferimentos no couro
cabeludo e no rosto.
A mídia não ladra... nem morde o problema. Limita-se a relatar
periodicamente estas “pequenas” desgraças. Não tem opinião. Não sofre.
Não se revolta. E, portanto, torna-se conivente por passividade e
omissão.
Também são coniventes, porque irresponsáveis, as autoridades públicas
que lêem e ouvem essas notícias e permanecem estáticas, indiferentes.
Sim, plagiando Machado de Assis, é fácil suportar a mordida que o
outro leva...
Dizia-me um cinófilo que esses animais possuem força suficiente para
arrastar um automóvel. Assassinos em potencial, permanecem ao lado de
suas futuras vítimas, energia represada. Um belo dia, por dá cá aquela
palha, como diziam os antigos, o bicho vira fera e agride o dono ou a
criança mais próxima.
Os cães continuam mordendo e matando. A mídia, como a caravana,
passa...
Gabriel Perissé
é doutor em educação pela USP e professor do mestrado em
educação da Uninove-SP. Web Site:
www.perisse.com.br
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