Correio da Cidadania - Colunistas - Gabriel Perissé

C. S. Lewis Teólogo

Gabriel Perissé

O filme As crônicas de Nárnia: o leão, a feiticeira e o guarda-roupa pôs em evidência o autor da obra homônima em que se baseou — o irlandês C. S. Lewis (1898-1963). Escritor de prestígio, sua produção ficcional não é menos importante do que seus livros sobre religião. Anglicano como o poeta T. S. Eliot, Lewis soube conciliar a exigente carreira acadêmica com o pensamento cristão, revelando-se um apologista sintonizado com a linguagem e a mentalidade do nosso tempo.

A editora Martins Fontes tem se encarregado de difundir a dimensão teológica de Lewis, mais do que editoras brasileiras confessionais — a publicação de Os quatro amores, A abolição do homem, Cartas de um diabo a seu aprendiz e de Cristianismo puro e simples reafirma a idéia de que santo de editoras santas não faz milagre...

As edições do Cartas de um diabo pela Vozes e pela Loyola estão esgotadas, como esgotadas encontram-se as traduções de Mere christianity da editora Quadrante (vinculada ao Opus Dei), que traduziu o título literal e ambiguamente como Mero cristianismo, e da ABU (editora da Aliança Bíblica Universitária do Brasil, de origem protestante), que optou por solução mais fiel: A essência do cristianismo autêntico.

O cristianismo, segundo Lewis, não é um mero cristianismo, uma bela doutrina a mais. Sua verdade não é aceitável por ser boa para a sociedade ou porque muitas pessoas gostam dela. O cristianismo não é conveniente, útil, provável... Sequer é facilmente compreensível. Não é um ponto de vista qualquer ou um conjunto de ideais que dignificam o ser humano. É mais do que tudo isso.

A mensagem cristã, em sua origem e originalidade, é pura e simplesmente algo que transcende opinião, gosto e boas intenções. A bem da verdade, o objetivo apologético de Lewis neste livro consiste em apresentar os pontos em comum que qualquer cristão reconhecerá como centrais e passíveis de consenso entre diferentes religiões que sigam a Cristo. Ou seja, não se discutem a infalibilidade papal, a imaculada conceição de Maria, o sacramento da confissão e outros temas polêmicos entre católicos, evangélicos, cristãos ortodoxos etc.

Já a encarnação do Verbo, a Santíssima Trindade, as virtudes teologais e a moralidade sexual comparecem em sua argumentação, na busca de uma “deep church”, lugar utópico, teológico, em que todos os discípulos de Cristo poderão se encontrar. Em paz, como verdadeiros irmãos.

Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor - www.perisse.com.br

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