Correio da Cidadania - Colunistas - Gabriel Perissé

 

Opus Dei – fenômeno religioso


Gabriel Perissé

O livro Opus Dei, os bastidores (Verus Editora, 2005), sobretudo para quem teve algum contato com a instituição ou pertenceu aos seus quadros, é uma luz demasiado forte. Uma denúncia demasiadamente lúcida. O Opus Dei analisado deixa entrever seu caráter obscurantista, seu comportamento de seita.

Do ponto de vista canônico, trata-se de uma Prelazia Pessoal. Do ponto de vista religioso, um grupo de 80 mil pessoas no mundo que seguem os ensinamentos de Josemaría Escrivá de Balaguer, sacerdote espanhol canonizado pela Igreja. Do ponto de vista político, uma instituição que diz não ter nada a ver com política... mas cujos membros tendem a apoiar as diretrizes chamadas “conservadoras”.

Do ponto de vista de quem integrou a “elite” da obra (os numerários), e é este o ponto de vista dos autores (Jean Lauand, Dario Ferreira e Marcio da Silva), a obra assume outro rosto. Manipulação, controle mental, pequenas torturas psicológicas... em nome de Deus.

Se estivéssemos nos tempos da Inquisição, os autores provavelmente seriam convidados a um interrogatório fervente. Tempos outros, a Igreja de hoje, a meu ver, poderá olhar com bons olhos este livro. Seus bispos poderão encontrar o outro lado da história. Lideranças leigas terão material para refletir e investigar.

Os autores são brasileiros, e por isso concentram sua atenção na existência do Opus Dei no Brasil (cerca de 50 anos entre nós...). Se for verdade o que escrevem, estamos diante de um fenômeno religioso ímpar. Como pode uma instituição católica produzir tantos problemas e permanecer incólume, impune, silenciosamente presente? Seu fundador recomendava que, diante das críticas, os membros da obra calassem, rezassem, trabalhassem mais, sorrissem...

Não vejo motivo nenhum para sorrisos. Os testemunhos recolhidos no livro referem-se a juventudes consumidas pelo fanatismo (discreto, mas eficaz), famílias desrespeitadas, ânsia de poder dentro da estrutura eclesiástica, incoerência entre bela doutrina e ação bolorenta, atitudes destrutivas a ponto de gerar doenças mentais entre vários membros da Prelazia.

O pragmatismo do Opus Dei tentará jogar sobre este livro uma sombra de indiferença. Evitará qualquer comentário ou defesa. Fingirá não ser com ele. Se alguém perguntar a algum membro da Obra o que acha do livro, dirá (orientado por instruções superiores...) que os autores são apenas ex-numerários desequilibrados, rancorosos e ressentidos.

Gabriel Perissé é  autor do livro recém-lançado Elogio da Leitura, pela Editora Manole.
Web Site: www.perisse.com.br

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