
Numerologia leu o meu
destino
Gabriel Perissé
Disse-me um amigo que, de acordo com a
numerologia, meu nome remete ao número um, o que significa “estar
sempre no começo”.
Acontece que estar sempre começando não
cai bem. Como chegar ao cume e à glória se volta e meia reapareço no
ponto de partida? Como mostrar aos adversários que sou uma ameaça? Com
que cara chegar em casa e dizer: “querida, já estava quase lá, mas, a
exemplo do condenado Sísifo, voltei ao pé da montanha”?.
Começar todos os dias como quem nasce a
cada manhã. Muito poético, mas nada rentável. Bela vantagem ser número
um! Nem cerveja eu sou! O primeiro passo se repete. Recomeçar como se
nada tivesse começado. Já ia ler o Apocalipse e de repente me vejo
outra vez no Gênese!
Passaram-se 24 horas e tudo continua na
mesma. Um dia atrás do outro não me diz nada. Tenho que aprender tudo
outra vez, como se nada soubesse. Quanto é mesmo dois mais dois? Um,
dois, feijão com arroz! A numerologia leu o meu destino.
Mas talvez não deva me preocupar em
demasia. Também o número um pode ser uma boa profecia. Estar sempre
começando, ser um eterno aprendista (como disse alguém), mistura de
aprendiz com artista, dizer que já vi e esqueci, sabia e não sei mais,
fui embora e regressei, desisti, mas voltei atrás, consegui tudo o que
queria e ó nóis aqui traveis!
Ser número um também poderia ser sinal de
liderança, destaque, prestígio. Contudo, os primeiros sempre serão os
últimos. Não vale a pena. Prefiro ficar na terceira fileira.
Ser número um também tem a ver com a
solidão, ou com a busca da identidade, ou com a consciência de Deus
único, ou com a idéia fixa, ou com o medo de amar, ou com o que eu
quiser, contanto que deseje mudar meu nome e alterar os algarismos que
regem meu futuro.
Ser número um também insinua o farol que
ilumina as rotas arriscadas, ou o sinal indicando o mais alto dos
céus, ou a árvore imperando no meio da campina, ou a própria figura do
homem, ereto, em busca da verticalidade que vença a morte.
Ser número um é bom e mau: mistério. Perdi
a inocência. Talvez seja melhor mudar de nome. Amigos, um nome novo,
por favor!
Gabriel Perissé é autor do
livro recém-lançado Elogio da Leitura, pela Editora Manole.
Web Site:
www.perisse.com.br
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