
A escola pública com
que sempre sonhei
Gabriel Perissé
A escola pública com que sempre
sonhei, sem imaginar que existisse na Zona Leste de São Paulo. Não
precisei atravessar o Atlântico nem pegar avião. A 20 minutos de
carro da estação Itaquera do metrô, encontrei a Escola Estadual
Jardim Iguatemi, que me deixou em êxtase durante vários dias. E
ainda agora.
Fui convidado em abril de 2005 para participar do Simpósio de
Educação Científica organizado pela escola, a realizar-se em junho.
Aceitei sem pensar duas vezes. Mas, depois, tentei imaginar o que me
aguardava. Infelizmente, nosso imaginário com relação à escola
pública brasileira traz imagens preocupantes. E por se tratar de uma
escola na periferia de São Paulo, preparei-me para não encontrar o
melhor.
E encontrei o melhor dos mundos possíveis. Suzy Ribeiro, a diretora,
contou-me dezenas de iniciativas, episódios, tudo registrado com
fotos que mostram uma grande vontade de acertar e, mais do que isso,
acertos reais!
Perguntei-lhe sobre evasão, violência, gravidez precoce... e todos
os indicadores indicam que eu estivera errado ao imaginar aquela
escola calamitosa de que falava Darcy Ribeiro em um de seus livros.
Os banheiros limpíssimos, as carteiras conservadas, o muro externo
sem pichação. Os alunos, na maioria adolescentes compenetrados (e
não aborrecidos nem aborrecentes), o corpo docente integrado, os
funcionários solidários, a comunidade participante.
A utopia encontrou um lugar na periferia paulistana. Sob a
orientação e a liderança de uma diretora consciente de seu papel, os
professores criam e organizam projetos de pesquisa que envolvem
todos os alunos. Em 2004, o Projeto Países. Em 2005, o Projeto
Cientistas. No ano que vem, estudarão 51 filósofos. Em 2007, já
sabem o que vão fazer — pesquisar a vida, a garra, a luta de
conhecidos atletas. Uma verdadeira maratona em busca do conhecimento
articulado, contextualizado.
O ambiente propicia a colaboração. Fui ministrar uma palestra sobre
metodologia científica, sobre a paixão de estudar. Encontrei alunos
entusiasmados. Os poucos momentos de “indisciplina” são a mais
natural reação de jovens não engessados. No encerramento, o Hino
Nacional soou-me com sua mais forte mensagem de amor pátrio, sem
pieguice ou cinismo.
Este artigo eu precisava escrever. Para dizer a mim mesmo que não
estava sonhando. Naquela manhã, conheci uma realidade real,
palpável, que recomendamos em nossos textos, nós, imaginosos
teóricos.
Gabriel Perissé é coordenador
pedagógico do Ipep (Instituto Paulista de Ensino e Pesquisa) e autor
do livro recém-lançado A arte de ensinar, pela Editora Montiei.
Web Site:
www.perisse.com.br
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