
A filosofia da educação
de Rubem Alves
Gabriel Perissé
Já ouvi professores (sobretudo
professoras) declararem seu amor incondicional pelos livros, artigos e
palestras de Rubem Alves. E já ouvi também (embora em menor número)
profissionais do mundo da educação fazerem sérias restrições ao que
Rubem Alves escreve. Alegam estes que o autor não possui aquela
cientificidade...
Rubem Alves não está nem um pouco preocupado com a cientificidade.
Defende a magia do ato de educar, infensa à fria e precisa linguagem
das ciências da educação. Talvez, em outros tempos, Rubem Alves caísse
nas mãos da Inquisição. Seria queimado em praça pública, sorrindo,
enigmático, sua alma subindo aos céus, e uma frase nos lábios: “santa
erudição...”.
Inimaginável, porém, será um dia ler em site ou estampado em camisa
negra com letras brancas frases como “Eu odeio Rubem Alves”. Odeia-se
Bush, odeia-se o Papa, odeia-se Madonna, odiamos até aquelas pessoas
simpáticas que, quando alguém se queixa da falta de tempo, gostam de
perguntar — “O que você faz de meia-noite às seis da manhã?”.
De fato, odiar Rubem Alves é ontologicamente impossível.
Se eu também não consigo odiar Rubem Alves, sinto dificuldade em
considerá-lo (como alguns exageram, e têm razões para exagerar) um dos
maiores intelectuais da educação brasileira. O próprio Rubem está do
meu lado e negará queimar incenso diante dessa imagem. Rubem Alves é
simplesmente um escritor. Sua filosofia da educação é não possuir uma
filosofia da educação.
Como escritor, tem o dom de provocar. E o seu alvo predileto é o
educador, a escola, o sistema de ensino. Recentemente, em texto
publicado pela Folha, lançou terríveis perguntas: “os saberes que se
ensinam em nossas escolas tornam os alunos mais competentes para
executar as tarefas práticas do cotidiano? E eles, alunos, aprendem a
ver os objetos do mundo como se fossem brinquedos? Têm mais alegria?”.
Três perguntas cuja resposta pode ser uma só: não. (Vejam: eu não
afirmei que a resposta só pode ser uma.) Eis aqui a não-filosofia da
educação do profeta Rubem Alves. Os profetas denunciam, alertam,
dramatizam, e nisso está sua condenação e redenção.
Já aqueles que, depois de lerem mais um artigo de Rubem, voltam para o
campo onde semeiam aulas e outras sementes, precisam encontrar
respostas diversas, recriar verdades. Sim, com erros e acertos, há
professores capazes de realizar grandes milagres. Só que praticamente
ninguém sabe onde eles se encontram.
Gabriel Perissé é coordenador
pedagógico do Ipep (Instituto Paulista de Ensino e Pesquisa) e autor
do livro recém-lançado A arte de ensinar, pela Editora Montiei.
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