
A solidariedade pede
passagem
Gabriel Perissé
Quarta-feira. Por volta das 23 horas, numa
farmácia de São Paulo, presenciei com o coração na mão uma cena
dolorosa.
Um homem veio até o caixa e falou com outro, que pagava a compra:
— Você é o dono daquele carro verde?
— Sou.
— Então tira ele de lá agora! Eu preciso sair com o meu carro!
O rapaz interpelado olhou com desprezo para o homem que lhe dera
aquela ordem, e respondeu no mesmo tom:
— Espera um pouco!
— Como? Você vai tirar o seu carro de lá agora! A minha filha está
morrendo, cara!
— Não grita comigo e espera, que eu vou pegar meu troco primeiro.
O pai perdeu o pouco de autocontrole que ainda tinha:
— Esperar?! Minha filha está morrendo, entendeu? Minha filha está
morrendo! Preciso levar este remédio para ela!
O outro não se comoveu. Pegou as moedas do troco, e com passadas
demoradas, ostentando o olhar mais frio que podia ostentar, provocava
nova onda de desespero no homem desesperado. Comprara uma pasta de
dentes e um aparelho de barbear. Não estava nem um pouco preocupado
com a urgência daquele estranho que viera exigir sua colaboração
compulsória.
Perplexo, eu não sabia se devia dizer alguma coisa, se devia me
aproximar de um deles, evitar uma troca de socos. O pai, em pânico,
queria (todo seu corpo lhe pedia) empurrar aquele que parecia ter sido
enviado pelo demônio para atrasar a chegada do remédio:
— Minha filha está morrendo e esse bosta ainda quer atrapalhar a minha
vida!
Os dois carros finalmente saíram. O do pai, cantando pneu.
E eu fiquei parado, segurando um xampu e o pacote de fraldas. Entrei
na pele daquele pai cujo único empenho era salvar a vida de sua filha,
e que se sentia a pessoa mais solitária do mundo. A dor lancinante
daquele homem doía em mim, e eu acabara de ver, sem direito a
anestesia, como vivemos numa cidade em que a palavra “solidariedade”
pode não significar absolutamente nada.
Graças ao fato de morar nesta metrópole, é mais fácil encontrar uma
farmácia perto de nossa casa, e aberta àquela hora, mas, pelo mesmo
fato de morar numa cidade grande, somos atingidos pela grande
indiferença que acaba se instalando no pequeno coração de cada um de
nós.
Gabriel Perissé é coordenador
pedagógico do Ipep (Instituto Paulista de Ensino e Pesquisa) e autor
do livro recém-lançado “Filosofia, Ética e Literatura” (Ed. Manole).
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