Assim como o verbo “partir” (separar algo de um todo ou separar-se
alguém de um lugar) vem do substantivo “parte”, o verbo “mentir” nasceu do
substantivo “mente”.
Desde crianças nos
advertem que é feio mentir, mas nada feia é sua origem etimológica:
mens, palavra latina que significa “inteligência, espírito, alma,
razão, sabedoria, juízo, discernimento, imaginação”. Mentir, portanto,
era, sem maniqueísmos, no começo dos começos, o ato de usar a mente, de
realizar uma operação intelectual, de exercitar a razão, de pôr a
imaginação para funcionar.
Foi justamente (ou
injustamente) por causa da imaginação que mentir tornou-se, com o tempo,
sinônimo de inventar algo com intuito de esconder verdades, distorcer
fatos, enganar os outros.
Curioso processo em
que um conceito do bem se tornou um verbo do mal...
As “mentiras”, ou
seja, muitas operações mentais ou da imaginação que não correspondiam à
verdade, obscureceram o ato de mentar, o puro ato de fazer a mente agir. O
trabalho da mente que ultrapassava os limites do aceitável foi dissociado
da criação livre e tornou-se pecado.
Contudo, a mente, em
particular a mente do artista, continua a mentir na clave da verdade e da
beleza. Os maiores mentirosos do mundo, como Shakespeare, como Van Gogh,
como Kafka, como Beethoven, criaram mundos irreais que são mais fiéis à
realidade do que a nossa própria noção de realidade. Os seus personagens,
as suas imagens, os seus sons, fruto de riquíssima vida mental, revelam
verdades que desmascaram as verdadeiras mentiras!
Mentirosos também são,
neste sentido, os grandes matemáticos, cientistas, inventores, líderes
políticos, místicos, filósofos, cujas verdades invadem os limites das
mentes limitadas, surpreendem os comodistas, os seguidores inertes das
verdades-comuns. Translimitando a realidade, os geniais mentirosos ampliam
a capacidade humana de transformar a vida.
Como discernir, em
nossa mente, o que é mentira mentirosa daquilo que é mentação
transformadora, como distinguir o alimento podre do que será sustento para
a humanidade?
Os que
têm vida interior ativa são os chamados “mentores”. Servem de guias,
conselheiros, são os que nos inspiram, nos estimulam, são os que orientam
nossas ações e projetos. Tudo o que se passa em nossa mente pode ser mera
mentira, a menos que autênticos mentores nos olhem e digam: “siga em
frente, a sua mente não mentiu”.
Gabriel Perissé é doutor em Filosofia da Educação pela USP
e coordenador pedagógico do Ipep (Instituto Paulista de Ensino e Pesquisa).