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Associação dos leitores anônimos


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Gabriel Perissé
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Meus caros amigos, desde que ingressei na Associação dos Leitores Anônimos (ALA) faz cinqüenta e dois dias, não pego num livro, numa revista, num panfleto, sequer espiei o jornal alheio no metrô ou no ônibus.

(Aplausos!)

Sei que ainda não estou curado. Minha luta consiste nisso: só por hoje não lerei!

(Mais aplausos!)

Só por hoje não comprarei um livro. Quando diviso uma livraria, mudo de calçada. Não digo que jamais voltarei a dar alguma mordida convulsiva num texto. Não prometo o impossível. Eu me conheço e sei que, no fundo, gostaria de jogar tudo para o alto e ficar lendo horas a fio, noites adentro, vida afora.

Só por hoje evitarei falar em livros, essa perigosa realidade feita de papéis costurados, numerados, por vezes ilustrados, encadernados, expostos em vitrines e estantes. Só por hoje (ah... como seria bom se eu pudesse...) não vou ficar folheando um livro, e esquecer de almoçar, de conviver com a família, de trabalhar...

Meu sonho, ou melhor, meu pesadelo é trabalhar numa editora, ou numa livraria, ou num sebo, e tocar os livros com carinho, impregnar-me das imagens, das idéias, dos mundos que estão ali dentro, pulsando sob as letras impressas. E todo o dia fazer hora extra, esperar os clientes irem embora, apagar as luzes, e ficar com uma lanterna, sozinho, lendo os últimos lançamentos.

As 24 horas de hoje são o único período durante o qual posso fazer alguma coisa para não ler. Ontem já passou. Amanhã ainda não chegou. Mas hoje é hoje, e hoje eu não vou me desviar do meu programa de recuperação. Talvez eu fique tentado a ler amanhã, mas amanhã é um momento com o qual me preocuparei amanhã. Talvez eu me sinta culpado porque no passado lia até as características físico-químicas dos refrigerantes! Chega de remorsos ou receios. O dia de hoje é tudo o que importa: só por hoje não lerei!

(Aplausos!)

É simples não querer ler. Posso ligar a TV a qualquer hora do dia ou da noite, posso abrir a geladeira, posso tomar algum calmante e ir dormir mais cedo. Mas sei que não é fácil vencer todos os dias. Recuperar-se de um hábito compulsivo requer esforço diligente.

(Aplausos redobrados!)

Obrigado, amigos, por terem lido este meu testemunho!

(Silêncio...)

 

Gabriel Perissé é doutor em Filosofia da Educação pela USP e coordenador pedagógico do Ipep (Instituto Paulista de Ensino e Pesquisa).

 

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