Meus
caros amigos, desde que ingressei na Associação dos Leitores Anônimos
(ALA) faz cinqüenta e dois dias, não pego num livro, numa revista, num
panfleto, sequer espiei o jornal alheio no metrô ou no ônibus.
(Aplausos!)
Sei
que ainda não estou curado. Minha luta consiste nisso: só por hoje não
lerei!
(Mais
aplausos!)
Só
por hoje não comprarei um livro. Quando diviso uma livraria, mudo de
calçada. Não digo que jamais voltarei a dar alguma mordida convulsiva num
texto. Não prometo o impossível. Eu me conheço e sei que, no fundo,
gostaria de jogar tudo para o alto e ficar lendo horas a fio, noites
adentro, vida afora.
Só
por hoje evitarei falar em livros, essa perigosa realidade feita de papéis
costurados, numerados, por vezes ilustrados, encadernados, expostos em
vitrines e estantes. Só por hoje (ah... como seria bom se eu pudesse...)
não vou ficar folheando um livro, e esquecer de almoçar, de conviver com a
família, de trabalhar...
Meu
sonho, ou melhor, meu pesadelo é trabalhar numa editora, ou numa livraria,
ou num sebo, e tocar os livros com carinho, impregnar-me das imagens, das
idéias, dos mundos que estão ali dentro, pulsando sob as letras impressas.
E todo o dia fazer hora extra, esperar os clientes irem embora, apagar as
luzes, e ficar com uma lanterna, sozinho, lendo os últimos lançamentos.
As 24
horas de hoje são o único período durante o qual posso fazer alguma coisa
para não ler. Ontem já passou. Amanhã ainda não chegou. Mas hoje é hoje, e
hoje eu não vou me desviar do meu programa de recuperação. Talvez eu fique
tentado a ler amanhã, mas amanhã é um momento com o qual me preocuparei
amanhã. Talvez eu me sinta culpado porque no passado lia até as
características físico-químicas dos refrigerantes! Chega de remorsos ou
receios. O dia de hoje é tudo o que importa: só por hoje não lerei!
(Aplausos!)
É
simples não querer ler. Posso ligar a TV a qualquer hora do dia ou da
noite, posso abrir a geladeira, posso tomar algum calmante e ir dormir
mais cedo. Mas sei que não é fácil vencer todos os dias. Recuperar-se de
um hábito compulsivo requer esforço diligente.
(Aplausos redobrados!)
Obrigado, amigos, por terem lido este meu testemunho!
(Silêncio...)
Gabriel Perissé
é doutor em Filosofia da Educação pela USP e coordenador pedagógico do
Ipep (Instituto Paulista de Ensino e Pesquisa).