Terapia é cuidado no sentido
mais amplo possível, é atenção, é encaminhamento para a cura, é busca da
saúde e da salvação. Retomando as origens etimológicas, o verbo latino
colere expressa todos os tipos de cultivo, incluindo-se o culto
religioso. Sócrates encarava a filosofia como uma terapia intelectual, que
auxiliava os homens a cultivarem a inteligência e a vontade, recuperando o
caminho do equilíbrio interior.
Cuidar de uma pessoa é um ato
terapêutico, um ato sagrado. Saúde física, amor à cultura e salvação estão
muito próximas. Para cuidar da saúde, não poucas vezes precisamos rever
nossos hábitos, nossa conduta, nossa relação com a natureza, com os outros
seres humanos, com os valores pregados ou rejeitados pela sociedade em que
vivemos.
É terapêutico religar-se ao
sol, às águas puras, é terapêutico alimentar-se em casa, com os
familiares, com os amigos, é terapêutico ler bons livros!
Existem dezenas, centenas de
terapias ortodoxas e alternativas, naturais e exóticas, suaves e radicais.
Todas elas com o objetivo de contribuir para que o ser humano atinja a
felicidade, esse “impossível necessário”, como diz o filósofo Julián
Marías. Da aromaterapia à cromoterapia, da arte-terapia à apiterapia
(baseada no consumo do mel), da laborterapia à risoterapia, praticamente
tudo pode tornar a vida humana mais humana.
Mas falemos de biblioterapia.
Temos a book therapy,
entre os norte-americanos, e a livre thérapie, entre os franceses.
Mas não se trata de uma nova ciência, pois é tão velha quanto o alfabeto e
o pergaminho.
Não é de hoje que muita gente
encontra na leitura de um livro a chave para entender seus problemas
existenciais, para avaliar os desafios da vida, para lidar com as
dificuldades naturais da convivência. Não um livro qualquer, mas um livro
em cujas páginas eu veja refletido meu rosto, ouça meus diálogos internos,
encontre em cada palavra uma pista, uma isca, um petisco!
Ler um poema de amor pode ser
a melhor forma de nos apaixonarmos. (Como não se apaixonar depois de ler
Pablo Neruda?!). Devorar um tratado de filosofia pode ser o melhor modo de
preparar-nos para uma nova etapa de vida. (Como não se sentir interpelado
pelas reflexões de um Kierkegaard, de um Sartre, de uma Simone Weil?!).
Ler é uma forma privilegiada
de entender o mundo, de entender-se um pouco melhor.
Leitura cura.
Gabriel Perissé
é doutor em
Filosofia da Educação pela USP e autor do livro O professor do futuro
(Thex Editora).