Para Martin Heidegger ensinar
é mais difícil do que aprender porque ensinar significa: deixar
aprender.
Uma arte refinada, que exige
sensibilidade extrema para perceber as disposições de cada aluno, para
detectar o grau de maturidade intelectual e emocional de cada aluno, para
permitir que o aluno mesmo entre em contato com a necessidade pessoal de
buscar a verdade
O professor que entende as
“artimanhas” desse deixar aprender jamais pretende dominar o aluno com
recompensas e muito menos com punições ou ameaças. Limita-se (rompendo
todos os limites) a apresentar o que entende ser a verdade, mais com uma
atitude de busca do que com grandes proclamações de já ter encontrado ou
definido tudo.
Deixar aprender é transmitir
o entusiasmo irresistível de quem se comprometeu radicalmente com a
realidade. O mestre entusiasmado faz os alunos descobrirem, em clima de
reverência (sem expulsar o bom humor), que aprender é emocionante porque
tem a ver com o sentido da vida.
O professor que sabe deixar
aprender dispensa a “aulística”, esta habilidade que se reduz a dar aulas
picotadas de sala em sala. Vive, sim, da “holística”, essa visão da
existência que nada deixa de fora. Não existe “o fora”. Todos os aspectos
da realidade são conciliáveis numa visão generosa: o subjetivo e o
objetivo, o interior e o exterior, a teoria e a praxis, a liberdade
e a obediência, a autonomia e a heteronomia, o etc. e o etc.
Deixar o outro aprender é
deixá-lo ver as realidades contrastantes que se harmonizam numa visão
abrangente, numa visão filosófica da realidade. A realidade é matizada, e
também precisamos deixar que ela se manifeste.
Deixar que o outro aprenda
não é deixar de dar aulas. É cultivar o conhecimento integral da
realidade, atitude que nada tem a ver com o conhecimento exaustivo das
coisas, com a tentação epistemológica da análise avassaladora, com o
domínio antecipado de categorias às quais o real deverá ajustar-se, custe
o que custar.
O professor verdadeiro, na
minha concepção, é aquele que entende o conhecimento como um
co-nascimento, ou, para ser mais explícito, como o co-naissance do
famoso trocadilho de Gabriel Marcel.
Isto é, deixar aprender é
deixar que o conhecimento nasça, que o conhecedor renasça a cada novo
conhecimento, é deixar que cada um se reconheça no ato de aprender.
O resto é pedagogia.
Gabriel Perissé é autor do recém-publicado livro O professor
do futuro (Thex Editora)
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