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A leitura deu samba


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Gabriel Perissé
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No carnaval deste ano, aqui em São Paulo, a tradicional Escola de Samba Nenê de Vila Matilde vai homenagear o jornalista, escritor e cartunista mineiro Ziraldo, homem multimídia que viveu e vive de palavras (e de imagens que valem por mil).

A propósito, é de Ziraldo uma dessas frases límpidas que dizem tudo: “Ler é mais importante do que estudar”. Uma frase que pode nos ajudar a fazer do Brasil um país de leitores. Leitores que leiam livros que abram alas, que abram os olhos para tudo ver.

Como tema do enredo da Nenê da Vila Matilde, Ziraldo é promovido a argumento. Ser enredo, no Brasil, é título honorífico. Ziraldo torna-se, neste momento, um símbolo, um caminho para pensarmos a arte brasileira, o livro infantil, para falarmos de uma certa maluquice brasileira que dá certo — porque nasce da brincadeira, do riso, da dança, da piada, do jogo, que nasce mais da caricatura do que de censuras e ditaduras.

 “O Mundo Colorido de um Maluco Genial” é o nome do samba-enredo, composto por Paulinho Sampagode, Fabiano Sorriso, Pedrinho Sem Braço e Edy: “Do desenho à leitura, universo de ternura / Surge um Menino Maluquinho e o Saci [...] / Lá vem minha Vila / Trazendo a magia... do saber / Se ler é sonhar, aprender, viajar / Nessa viagem eu sou mais Nenê”.

A letra distingue três funções da leitura: sonhar, aprender e viajar.

A leitura-sonho, porque é sonhar de olhos abertos, viver utopicamente, recriar o real. O sonho é a razão trabalhando na clave terapêutica, na clave artística, na clave metafórica, na clave dramática. Quem não sonha vive de insônias sem fim. O sonho nos acorda para outras realidades.

A leitura-aprendizado. Quem se dedica à leitura perde o bem-estar do desconhecimento, ganha nova lucidez. Ah, como é “vantajoso” não saber exatamente o que está acontecendo, o que pode acontecer, o que já aconteceu! Como é reconfortante não aprofundar, como é tranqüilizador não pesquisar, como nos dá paz não entender! Já a leitura faz de nós meninos maluquinhos, atentos, dispostos a dar a volta por cima.

E a leitura-viagem. Nas folhas mágicas, ultrapassamos nossos próprios passos. Todo livro é passaporte para além da morte. Ler é sambar com profissionalismo, com raiva, com amor à vida. E quem não gosta de samba... bom sujeito não é!

 

Gabriel Perissé é autor do recém-publicado livro O professor do futuro (Thex Editora)

 

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