No final
do mês de novembro, a Câmara Municipal do Rio de Janeiro aprovou um
projeto que estabelece a multa lingüística. O autor do projeto, o vereador
Pedro Porfírio, pensou, por exemplo, nesses comerciantes que prejudicam o
idioma e confundem as novas gerações, perpetrando inomináveis delitos
gramaticais nos cartazes expostos ao indefeso público.
Mesmo
que a proposta seja sancionada pelo prefeito César Maia, não temos nada a
temer. A nova lei cairá no esquecimento como caiu a que foi criada em São
Paulo pelo ex-prefeito Celso Pitta, em 1997, e previa multa para faixas,
cartazes e outdoors que ferissem a norma culta.
A idéia
é de uma genialidade diabólica! Multar o povo que não recebeu, dos mesmos
governos que o multam, os caminhos educacionais necessários para dominar
com destreza as regras, exceções e sutilezas gramaticais.
Naturalmente, o projeto do vereador prevê a criação do Departamento de
Polícia Gramatical (DPG), formado por delegados, agentes e detetives.
Institui também o Tribunal Superior Gramatical, com juízes, promotores e
advogados especializados. E cria, sem dúvida, a imprescindível figura do
fiscal gramatical que, diligente servidor público, fará uma lista de
ocorrências:
Multa
lingüística para a lanchonete que prepara um saboroso mixto-quente mas
deixa esfriar o verdadeiro misto-quente na geladeira.
Multa
lingüística para quem concerta aparelhos de som mas não sabe consertar uma
palavra.
Multa
lingüística para as imobiliárias que, no desespero, anunciam: Vendem-se
uma casa germinada.
Multa
lingüística para o dono de um curso que oferece áulas de capuera, e vive
dando rasteira na língua portuguesa.
Multa
lingüística para a moça que, enfiando os pés pelas mãos, escreveu na placa
improvisada: Manicure e pe de curi na ora.
Pensando
melhor, além da multa, poderiam ser estipulados castigos infamantes, como
arrastar uma bola de ferro acorrentada à perna, ou ostentar, pendurada ao
pescoço, uma plaqueta com a inscrição “HERREI I TO PAGANO”. Nos casos de
reincidência, açoites em praça pública. Para os casos mais graves,
marcação a ferro em brasa com as palavras grafadas corretamente e,
esgotadas as chances de recuperação, a pena capital, cabendo ao criminoso
o direito de escolher entre forca e guilhotina!
Vencida
essa batalha contra os erros gramaticais, outras leis desse teor deverão
ser propostas e aprovadas. Uma delas poderia estabelecer multas e punições
severas para todos aqueles que, sem ter o que fazer, inventam leis
ridículas como esta!
Gabriel Perissé é autor do recém-publicado livro O professor
do futuro (Thex Editora)