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A multa lingüística


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Gabriel Perissé
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No final do mês de novembro, a Câmara Municipal do Rio de Janeiro aprovou um projeto que estabelece a multa lingüística. O autor do projeto, o vereador Pedro Porfírio, pensou, por exemplo, nesses comerciantes que prejudicam o idioma e confundem as novas gerações, perpetrando inomináveis delitos gramaticais nos cartazes expostos ao indefeso público.

Mesmo que a proposta seja sancionada pelo prefeito César Maia, não temos nada a temer. A nova lei cairá no esquecimento como caiu a que foi criada em São Paulo pelo ex-prefeito Celso Pitta, em 1997, e previa multa para faixas, cartazes e outdoors que ferissem a norma culta.

A idéia é de uma genialidade diabólica! Multar o povo que não recebeu, dos mesmos governos que o multam, os caminhos educacionais necessários para dominar com destreza as regras, exceções e sutilezas gramaticais.

Naturalmente, o projeto do vereador prevê a criação do Departamento de Polícia Gramatical (DPG), formado por delegados, agentes e detetives. Institui também o Tribunal Superior Gramatical, com juízes, promotores e advogados especializados. E cria, sem dúvida, a imprescindível figura do fiscal gramatical que, diligente servidor público, fará uma lista de ocorrências:

Multa lingüística para a lanchonete que prepara um saboroso mixto-quente mas deixa esfriar o verdadeiro misto-quente na geladeira.

Multa lingüística para quem concerta aparelhos de som mas não sabe consertar uma palavra.

Multa lingüística para as imobiliárias que, no desespero, anunciam: Vendem-se uma casa germinada.

Multa lingüística para o dono de um curso que oferece áulas de capuera, e vive dando rasteira na língua portuguesa.

Multa lingüística para a moça que, enfiando os pés pelas mãos, escreveu na placa improvisada: Manicure e pe de curi na ora.

Pensando melhor, além da multa, poderiam ser estipulados castigos infamantes, como arrastar uma bola de ferro acorrentada à perna, ou ostentar, pendurada ao pescoço, uma plaqueta com a inscrição “HERREI I TO PAGANO”. Nos casos de reincidência, açoites em praça pública. Para os casos mais graves, marcação a ferro em brasa com as palavras grafadas corretamente e, esgotadas as chances de recuperação, a pena capital, cabendo ao criminoso o direito de escolher entre forca e guilhotina!

Vencida essa batalha contra os erros gramaticais, outras leis desse teor deverão ser propostas e aprovadas. Uma delas poderia estabelecer multas e punições severas para todos aqueles que, sem ter o que fazer, inventam leis ridículas como esta!

 

Gabriel Perissé é autor do recém-publicado livro O professor do futuro (Thex Editora)

 

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