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A alfabettização de Frei Betto


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Por Gabriel Perissé
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Frei Betto, em seu Alfabetto (editora Ática, 2002), relata o que é de suma importância para todo intelectual e escritor: seu período de formação, seu contato com professores e livros, suas descobertas de juventude, sua opção existencial.

Não que Frei Betto apareça aqui como um pensador precoce, mergulhado desde a mais tenra idade em leituras profundas e decisivas. Tampouco vemos aqui um religioso nato, aquele tipo de criança que praticamente já nasce vestida de batina e cheirando a incenso. Carlos Alberto é um brasileiro comum. Sua atitude perante a vida, parodiando Adélia Prado, não tem pedigree. Suas inquietações religiosas vêm misturadas com preocupações de cidadão. Seu trajeto escolar nada teve de brilhante.

As leituras não são, para mencionar um capítulo que costuma ser fundamental nas memórias de um escritor, o que chame a atenção no currículo de Frei Betto. Mas há, sim, um momento em que o jovem mineiro descobre a literatura que o marcaria: "Como a tirar o atraso em que me atolara por tanto tempo, perdido com a leitura de gibis, eu devorava toda a literatura cristã progressista que me caía à mão — Maritain, Chesterton, Bernanos, Mounier, Lebret, Congar, Chenu, Tristão de Athayde".

Estes autores, e mais tarde Pierre Teilhard de Chardin, configuram a base teológica da reflexão e da ação de Frei Betto, que, com alma de jornalista, vive da mística da palavra, e da mística da amizade. Pois este é talvez um dos seus traços mais evidentes: o cultivar a lembrança das pessoas com quem compartilhou e compartilha as notícias da vida.

Para os contemporâneos (e participantes) da JUC, da JEC e de outros movimentos de um cristianismo engajado, Frei Betto traz o testemunho do idealismo que foi truncado pela história, pelo militarismo, pelo medo que se torna violento. Não se nota, porém, em suas palavras, o ressentimento de quem lamenta a derrota. Imagino que o dominicano, graças à visão sobrenatural que a vocação lhe deu, encontra uma resposta, uma aposta.

Uma aposta na sensibilidade, e também na ironia de quem tira a importância excessiva que costumamos dar à nossa biografia.

Mas sabendo que toda a vida é um livro aberto a ser lido com reverência e empatia — bela certeza a passear tranqüila nas entrelinhas deste novo livro de Frei Betto.

Livro sem pose, livro sem exageros, sem triunfalismos.

 

 

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