Escrever é tomar a decisão de
descobrir o meu método pessoal para forjar o meu eu em forma de texto.
Em Assim falava Zaratustra, escrevia
Nietzsche: "Como é agradável ouvir palavras e sons! Não serão as palavras e os
sons os arco-íris e as pontes ilusórias entre as coisas eternamente separadas?"
e podemos nós, ousadamente, argumentar que são as palavras o que há de menos
ilusório, são os verdadeiros arco-íris e as autênticas pontes impedindo a separação
eterna entre as coisas e as pessoas.
E as palavras somos nós, preenchendo esses
abismos.
Por mais prosaico que seja o texto que
precisamos escrever, por mais objetiva que seja a necessidade de uma carta ou de um e-mail,
temos de levantar essas pontes com nossas palavras, com nossa personalidade, e fazer delas
um caminho vivo para a comunicação interpessoal.
E essa comunicação precisa ser original.
Originalidade é o que se faz novo aos nossos
olhos, com novas coerências, novo atrativo. Uma pessoa original é aquela que está
sempre nos surpreendendo pelo fato de ser uma pessoa. Uma pessoa original é aquela que
traz a marca da evolução contínua, da insatisfação consigo mesma, e da busca de
maneiras novas de dizer o que todos já sabiam.
Mas o paradoxal nessa história é que a arte
de escrever de maneira original consiste na capacidade de repetir o que alguém já disse,
de renovar o que alguém já expressou, e fazê-lo de uma forma reconhecidamente inédita.
O desenvolvimento da originalidade possui
algumas etapas, a primeira das quais é imitar os modelos clássicos, e a última...
imitar-se a si mesmo até a morte!
A solução para este aparente beco sem saída
é entrar nele, corajosamente, e compreender que podemos imitar de forma criativa.
Antes mesmo de pensar nos modelos clássicos,
voltemo-nos para as frases mais corriqueiras, como "estou com a faca e o queijo na
mão", "desisti de dar murro em ponta de faca", "o tiro saiu pela
culatra", e outras preciosidades que, bem aquilatadas, são inspiradoras de nossa
originalidade.
Outro dia, minha filha de 3 anos de idade
disse, enquanto me pedia que a ajudasse a abrir uma garrafa: "Pai, vamos misturar
nossas forças?!". Mais do que unir, misturar! Ela estava aprofundando e renovando a
idéia da união. Estava, sem querer, ajudando a repensar um princípio filosófico, e
político.
Gabriel Perissé é autor do recém-publicado livro
"A arte da palavra" (Editora Manole)