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A arte da palavra


Por Gabriel Perissé
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Escrever é tomar a decisão de descobrir o meu método pessoal para forjar o meu eu em forma de texto.

Em Assim falava Zaratustra, escrevia Nietzsche: "Como é agradável ouvir palavras e sons! Não serão as palavras e os sons os arco-íris e as pontes ilusórias entre as coisas eternamente separadas?" — e podemos nós, ousadamente, argumentar que são as palavras o que há de menos ilusório, são os verdadeiros arco-íris e as autênticas pontes impedindo a separação eterna entre as coisas e as pessoas.

E as palavras somos nós, preenchendo esses abismos.

Por mais prosaico que seja o texto que precisamos escrever, por mais objetiva que seja a necessidade de uma carta ou de um e-mail, temos de levantar essas pontes com nossas palavras, com nossa personalidade, e fazer delas um caminho vivo para a comunicação interpessoal.

E essa comunicação precisa ser original.

Originalidade é o que se faz novo aos nossos olhos, com novas coerências, novo atrativo. Uma pessoa original é aquela que está sempre nos surpreendendo pelo fato de ser uma pessoa. Uma pessoa original é aquela que traz a marca da evolução contínua, da insatisfação consigo mesma, e da busca de maneiras novas de dizer o que todos já sabiam.

Mas o paradoxal nessa história é que a arte de escrever de maneira original consiste na capacidade de repetir o que alguém já disse, de renovar o que alguém já expressou, e fazê-lo de uma forma reconhecidamente inédita.

O desenvolvimento da originalidade possui algumas etapas, a primeira das quais é imitar os modelos clássicos, e a última... imitar-se a si mesmo até a morte!

A solução para este aparente beco sem saída é entrar nele, corajosamente, e compreender que podemos imitar de forma criativa.

Antes mesmo de pensar nos modelos clássicos, voltemo-nos para as frases mais corriqueiras, como "estou com a faca e o queijo na mão", "desisti de dar murro em ponta de faca", "o tiro saiu pela culatra", e outras preciosidades que, bem aquilatadas, são inspiradoras de nossa originalidade.

Outro dia, minha filha de 3 anos de idade disse, enquanto me pedia que a ajudasse a abrir uma garrafa: "Pai, vamos misturar nossas forças?!". Mais do que unir, misturar! Ela estava aprofundando e renovando a idéia da união. Estava, sem querer, ajudando a repensar um princípio filosófico, e político.

 

Gabriel Perissé é autor do recém-publicado livro "A arte da palavra"  (Editora Manole)

 

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