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A língua é nossa


Por Gabriel Perissé
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O meu amigo Antônio Draetta emprestou-me recentemente um exemplar de julho de 1950 da praticamente esquecida Revista Problemas, publicação mensal de cultura política, àquela altura sob a direção de Diógenes Arruda.

Neste número, há um artigo de Josef Stálin — Sobre o Marxismo na Lingüística — em que lemos um elogio à força unificadora do idioma: "para isso a língua foi criada, para servir à sociedade em seu conjunto, de instrumento que permita aos homens comunicar-se entre si; para ser comum aos membros da sociedade, independentemente de sua situação de classe."

A língua é nossa. E é nossa porque permite esta comunicação entre nós, mesmo que haja diferenças regionais, culturais, ideológicas e etárias. O milagre cotidiano da comunicação entre as pessoas, apesar dos equívocos e mal-entendidos, devemos a esta língua materna e paterna em que, ao nascer, ouvimos as primeiras palavras de boas-vindas e na qual ouviremos o derradeiro adeus.

A língua, porém, é mais do que um instrumento de comunicação. As recentes reflexões da filosofia da linguagem vêem no idioma um âmbito que não se pode medir ou quantificar, um "lugar" em que nos encontramos com nossos semelhantes e dessemelhantes.

"A vida é vadia, se entrega pra todos e acaba depressa", cantava o compositor Taiguara, mas é no idioma que sobrevivemos e, graças à comunicação entre os idiomas, com a base comum da humana linguagem, perdoamos a vida e perduramos, vencendo as distâncias e separações.

Na língua, degustamos as idéias que nos foram transmitidas ao longo dos séculos.

Na língua, experimentamos uma e outra vez as intuições poéticas de todos os tempos.

Na língua, alimentamos nossa vontade de nomear e de invocar.

Na língua, sentimos o amargo sabor das mentiras e aprendemos a reconhecê-las em outras ocasiões.

Na língua, beijamos a felicidade, amor impossível e sempre necessário.

Na língua, dizemos verdades e as verdades nos dizem.

Na língua, costuramos os retalhos do conhecimento com que nos vestimos.

Na língua, xingamos e agradecemos, calamos e gritamos, somos redundantes e incisivos, aprendemos e esquecemos, lembramos e divulgamos.

Na língua, nossas mágoas e nossas mágicas, nossos medos e nossos méritos, nossos modos e nossas mímicas, nossos mundos e nossas músicas.

Na língua, respiramos, nos movemos e somos. Nadamos em suas águas, e com elas um dia, depois de um novo mergulho, iremos nos fundir e dissolver, desaparecendo sem dizer palavra.

 

Gabriel Perissé é autor do livro O Leitor Criativo (Editora Ômega)

 

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