O meu amigo Antônio Draetta emprestou-me
recentemente um exemplar de julho de 1950 da praticamente esquecida Revista Problemas,
publicação mensal de cultura política, àquela altura sob a direção de Diógenes
Arruda.
Neste número, há um artigo de Josef Stálin
Sobre o Marxismo na Lingüística em que lemos um elogio à força
unificadora do idioma: "para isso a língua foi criada, para servir à sociedade em
seu conjunto, de instrumento que permita aos homens comunicar-se entre si; para ser comum
aos membros da sociedade, independentemente de sua situação de classe."
A língua é nossa. E é nossa porque permite
esta comunicação entre nós, mesmo que haja diferenças regionais, culturais,
ideológicas e etárias. O milagre cotidiano da comunicação entre as pessoas, apesar dos
equívocos e mal-entendidos, devemos a esta língua materna e paterna em que, ao nascer,
ouvimos as primeiras palavras de boas-vindas e na qual ouviremos o derradeiro adeus.
A língua, porém, é mais do que um
instrumento de comunicação. As recentes reflexões da filosofia da linguagem vêem no
idioma um âmbito que não se pode medir ou quantificar, um "lugar" em que nos
encontramos com nossos semelhantes e dessemelhantes.
"A vida é vadia, se entrega pra todos e
acaba depressa", cantava o compositor Taiguara, mas é no idioma que sobrevivemos e,
graças à comunicação entre os idiomas, com a base comum da humana linguagem, perdoamos
a vida e perduramos, vencendo as distâncias e separações.
Na língua, degustamos as idéias que nos foram
transmitidas ao longo dos séculos.
Na língua, experimentamos uma e outra vez as
intuições poéticas de todos os tempos.
Na língua, alimentamos nossa vontade de nomear
e de invocar.
Na língua, sentimos o amargo sabor das
mentiras e aprendemos a reconhecê-las em outras ocasiões.
Na língua, beijamos a felicidade, amor
impossível e sempre necessário.
Na língua, dizemos verdades e as verdades nos
dizem.
Na língua, costuramos os retalhos do
conhecimento com que nos vestimos.
Na língua, xingamos e agradecemos, calamos e
gritamos, somos redundantes e incisivos, aprendemos e esquecemos, lembramos e divulgamos.
Na língua, nossas mágoas e nossas mágicas,
nossos medos e nossos méritos, nossos modos e nossas mímicas, nossos mundos e nossas
músicas.
Na língua, respiramos, nos movemos e somos.
Nadamos em suas águas, e com elas um dia, depois de um novo mergulho, iremos nos fundir e
dissolver, desaparecendo sem dizer palavra.
Gabriel Perissé é autor do livro O Leitor Criativo
(Editora Ômega)
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