img4.gif (1916 bytes)

A arte de discursar


Por Gabriel Perissé
_

 

Recebo, em plena época de discursos políticos, o livro 100 Discursos Históricos, da Editora Leitura (de Minas Gerais), organizado pelo poeta Carlos Figueiredo, a quem conheci num sarau literário no começo deste ano.

Idéia excelente. Selecionar obras-primas da oratória de todos os tempos compostas por representantes do homo loquens provenientes do oriente e do ocidente, da antigüidade e da modernidade. São sermonistas, líderes, pensadores, desde o faraó Tutancâmon e o Mestre Jesus Cristo ao poeta Victor Hugo e ao pacifista Gandhi; desde o tirano Nero e o rei Carlos Magno ao revolucionário Lênin e ao presidente Kennedy. Seres cujas palavras atraíram a atenção de seus contemporâneos e continuam ecoando em nossos ouvidos.

Uma primeira lição a tirar após a leitura deste livro é que em cada um desses discursos, concordemos ou não com as idéias ali defendidas, há paixão, inquietação, indignação e que, portanto, não se pode conceber um discurso anêmico e apático. Toda vez que a voz humana se eleva e se torna inesquecível é porque havia sangue e compromisso.

Um discurso sem amor e sem dor fica preso na garganta.

Um discurso não inflamado já nasce retoricamente morto.

Mas quando a palavra quer ser proferida, alguém precisará dizê-la, e sempre haverá quem a ouça.

Um dos discursos selecionados mais impressionantes pertence a Frei Bartolomeu de Las Casas (século XVI), um sermão em que o humanista espanhol dilacera com palavras certeiras a máscara da hipocrisia daqueles que, sob pretexto de difundirem a fé cristã, "se arremessaram [...] como lobos, como leões e tigres cruéis, famintos", sobre os índios, matando, só na Ilha Espanhola (hoje República Dominicana), mais de dois milhões deles.

Outro espanhol, mais próximo de nós no tempo, José Ortega y Gasset, está aqui representado com um discurso filosófico, que serve como antídoto para a audição de discursos demagógicos, desses discursos que, sabemos, vão se dissolver em breve.

Ortega nos diz: "A vida é sempre mais ou menos criação e tem, em sua raiz, um gérmen de arte. E a arte começa aceitando uma fatalidade. O poeta aceita a fatalidade da rima e do ritmo e, concentrando-se, apóia-se nela, criando a poesia."

A arte de viver, como a arte de discursar, apóia-se na fatalidade do que já existe. E dessa fatalidade cria, como nos verdadeiros discursos, um novo curso para uma vida verdadeira.

Gabriel Perissé é autor do recém-lançado livro "Palavras e origens", Ed. Mandruvá.

Dê a sua opinião sobre este artigo

 

Copyright © 1998-2004 Correio da Cidadania - Todos os direitos reservados
Versão eletrônica - www.correiocidadania.com.br