Recebo, em plena época de discursos
políticos, o livro 100 Discursos Históricos, da Editora Leitura (de Minas
Gerais), organizado pelo poeta Carlos Figueiredo, a quem conheci num sarau literário no
começo deste ano.
Idéia excelente. Selecionar obras-primas da
oratória de todos os tempos compostas por representantes do homo loquens provenientes
do oriente e do ocidente, da antigüidade e da modernidade. São sermonistas, líderes,
pensadores, desde o faraó Tutancâmon e o Mestre Jesus Cristo ao poeta Victor Hugo e ao
pacifista Gandhi; desde o tirano Nero e o rei Carlos Magno ao revolucionário Lênin e ao
presidente Kennedy. Seres cujas palavras atraíram a atenção de seus contemporâneos e
continuam ecoando em nossos ouvidos.
Uma primeira lição a tirar após a leitura
deste livro é que em cada um desses discursos, concordemos ou não com as idéias ali
defendidas, há paixão, inquietação, indignação e que, portanto, não se pode
conceber um discurso anêmico e apático. Toda vez que a voz humana se eleva e se torna
inesquecível é porque havia sangue e compromisso.
Um discurso sem amor e sem dor fica preso na
garganta.
Um discurso não inflamado já nasce
retoricamente morto.
Mas quando a palavra quer ser proferida,
alguém precisará dizê-la, e sempre haverá quem a ouça.
Um dos discursos selecionados mais
impressionantes pertence a Frei Bartolomeu de Las Casas (século XVI), um sermão em que o
humanista espanhol dilacera com palavras certeiras a máscara da hipocrisia daqueles que,
sob pretexto de difundirem a fé cristã, "se arremessaram [...] como lobos, como
leões e tigres cruéis, famintos", sobre os índios, matando, só na Ilha Espanhola
(hoje República Dominicana), mais de dois milhões deles.
Outro espanhol, mais próximo de nós no tempo,
José Ortega y Gasset, está aqui representado com um discurso filosófico, que serve como
antídoto para a audição de discursos demagógicos, desses discursos que, sabemos, vão
se dissolver em breve.
Ortega nos diz: "A vida é sempre mais ou
menos criação e tem, em sua raiz, um gérmen de arte. E a arte começa aceitando uma
fatalidade. O poeta aceita a fatalidade da rima e do ritmo e, concentrando-se, apóia-se
nela, criando a poesia."
A arte de viver, como a arte de discursar,
apóia-se na fatalidade do que já existe. E dessa fatalidade cria, como nos verdadeiros
discursos, um novo curso para uma vida verdadeira.
Gabriel Perissé é autor do recém-lançado livro
"Palavras e origens", Ed. Mandruvá.
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