Chegamos à metade do ano e só agora descobri que a ONU proclamou 2002 como Ano
Internacional das Montanhas.
Pode parecer um pouco bizarro, à primeira
vista, mas, pensando em termos ecológicos, é necessário, sim, tomar consciência do
sofrimento das montanhas.
As montanhas são fonte de água e energia.
São centros de cultura e de lazer. Pelo menos 10% da humanidade vive nas montanhas que,
por sua vez, ocupam a quinta parte do planeta. A degradação das montanhas pelo turismo
consumista, pela exploração econômica sem critérios e pela urbanização tresloucada,
põe em risco esses recursos, esses habitantes e, claro, a todos nós, uma vez que estamos
todos integrados ao sistema da vida.
Vamos, no entanto, pensar de um modo menos
ecológico mas nem por isso menos fundamental. Contemplemos as montanhas com um olhar
menos geológico e botânico, e mais filosófico e simbólico.
O pensador francês Teilhard de Chardin dizia:
"A essência da vida é a tendência para o alto". A montanha, que podemos
estilizar como um triângulo ou uma pirâmide, sugere a necessidade que sentimos nos
abismos da alma de escalar, subir, entrar em contato com o céu, com os deuses, com os
valores mais elevados.
Relatos antigos dizem que o paraíso ficava num
monte. Não era à toa, portanto, que o místico espanhol Juan de la Cruz via na "subida
al monte Carmelo" a melhor imagem poética para a ascensão do homem à
santidade. Muitos séculos antes, Dante já situava o paraíso terrestre no alto da
montanha do purgatório. E nem precisaríamos lembrar que o Mestre pregou o sermão da
montanha, morreu num monte chamado Calvário e subiu aos céus no monte das Oliveiras.
Se Maomé não vai a montanha, a montanha vai
à Maomé!
As montanhas vêm a nós com uma carga
simbólica imensa.
Há um apelo que vem das montanhas... e dos
nossos estratos mais profundos. Um apelo para empreender uma subida difícil, perigosa (em
que todos os santos ajudam!), em busca de superação. Um apelo para atender ao nosso
anseio de grandes alturas.
Ninguém sabe ao certo se está ou não
preparado para subir, mas este chamado é universal.
Todos estamos convocados a escalar esse Everest
que existe em nós. Sair do comodismo horizontalizado e buscar os amplos horizontes com
que a chegada ao cume vai nos presentear.
Gabriel Perissé é autor do
recém-lançado livro "Palavras e origens" (Editora Mandruvá).
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