O
pensador Julián Marías utiliza-se com freqüência da expressão "raíces morales
de la inteligencia".
Para ele, sem um boa dose de bondade, podemos
ser pessoas "espertas", mas não conseguiremos ser inteligentes, no sentido mais
forte da palavra.
Ser inteligente consiste em abrir-nos para a
realidade, permitir que ela penetre em nossa mente, e seja reconhecida, acolhida, como num
ato de amor.
Conhecemos pessoas sagazes para realizar o mal
(que é desrealizar o bem...), mas não podemos dizer que sejam inteligentes. Sua
sagacidade é maliciosa, ardilosa. O que desejam não é compreender a vida, mas manipular
os dados, e manipular os outros!
Uma pessoa inteligente sabe esperar. Não se
precipita. Deixa que a realidade se manifeste, que se desdobre. Nossa pressa em explicar,
resolver e concluir atropela a vida, atropelando muitas vezes a solução que a própria
vida trazia em suas delicadas entranhas.
É urgente que saibamos esperar!
Uma pessoa inteligente não teme esperar, nem
assistir às aulas de solidão que o mundo nos oferece. Na solidão, ouvimos melhor. Na
solidão, descobrimos que o ritmo da realidade não é bem aquele que tínhamos decretado.
Há pessoas que moram em suas idéias como em
castelos, dos quais lançam ordens e leis, dispostos a mudar a face da terra, e fazer dela
um lugar tão estreito quanto a sua própria mente.
Não ser inteligente, ou melhor, não usar a
inteligência que todos temos, é defender-se da realidade como quem teme uma agressão
física. A inteligência medrosa cria uma carapaça protetora, e geralmente torna-se ela
mesma agressiva, hostil, intolerante.
Uma inteligência se fecha quando encara a
realidade como sua inimiga nº 1. A história, os atos humanos, o que nos rodeia em termos
físicos e metafísicos, a vida com suas alegrias e dores, tudo isso é visto como
ameaça.
Mas há um modo de abrir-nos inteligentemente
para a realidade.
Devemos, antes de mais nada, inteirar-nos, sem
a pretensão de já saber tudo, de já ter entendido e enquadrado tudo. Devemos
inteirar-nos da realidade para sermos pessoas íntegras.
Essa abertura possivelmente nos fará detectar,
talvez no próprio núcleo do nosso sistema de convicções, um erro, um equívoco, um
preconceito. E, então, será preciso expulsá-los para fazer entrar uma verdade que
estava ali, sentada à nossa porta, esperando pacientemente.
Porque abrir a inteligência é, muitas vezes,
abrir o coração.
Gabriel Perissé é autor do recém-lançado livro
"Palavras e origens" (Editora Mandruvá).
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