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A revolução das palavras:
À luz da etimologia (3)


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Por Gabriel Perissé
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A palavra revolução vem do latim revolutio, que remete ao ato de trazer à tona o que está embaixo, de girar, remover, transformar.

A etimologia é um ato revolucionário porque traz à luz sentidos ocultos, cobertos pela rotina, pela preguiça mental, pelo pragmatismo verbal e pelos oportunismos.

A etimologia é revolucionária porque não se prende ao momento presente e contribui, por exemplo, para dar à palavra conservador o direito à polissemia. O conservador que conserva coisas boas não é necessariamente retrógrado. Pesquisando a origem das palavras, recuperamos o que escapou, conservamos na memória o que a futilidade nos fez perder.

A propósito, futilidade relaciona-se ao verbo latino fundere que significava soltar, e era usado pelos romanos tanto para falar dos vasos rachados (vasos fúteis) que deixavam escorrer o seu conteúdo líquido, quanto para a perda da vida: fundere vitam era sinônimo de expirar.

O estudo da etimologia é poético e, portanto, revolucionário.

Mallarmé afirmava que fazer poesia era tratar as palavras sem o rigorismo do uso. Há muito de poesia na busca das fontes, para entender as evoluções e involuções das palavras.

A arbitrariedade da linguagem é um fato lingüístico, contra o qual não há argumentos. Mas entender o como e o porquê das palavras terem sido assim e agora serem outras, isso já é argumento etimológico. E os argumentos etimológicos têm a "irresponsabilidade" das crianças que querem descobrir o coração do relógio e ouvir a voz inaudível das bonecas de pano.

A etimologia tem muito da Emília de Monteiro Lobato que, perante a realidade e a linguagem, quer revolucionar as coisas, endireitar o mundo, refazer o dicionário.

No livro mais surrealista de Lobato, A Chave do Tamanho, publicado em 1944, Emília transforma todas as pessoas em seres pequeninos com o objetivo de acabar com a Segunda Guerra Mundial. E a sua revolução começa com uma questão lingüística.

Dona Benta, olhando o fim do dia, exclama:

— Que maravilhoso fenômeno é o pôr-do-sol!

Mas Emília resolve encrencar:

— Por que é que se diz "pôr-do-sol"? Que é que o Sol põe? Algum ovo?

— O Sol não põe nada, bobinha. O sol põe-se a si mesmo - respondeu Dona Benta.

— Então ele é o ovo de si mesmo. Que graça!

E que desgraça quando o povo, esquecendo-se da etimologia, condena-se a ficar mudo!

Gabriel Perissé é autor do recém-lançado livro "Palavras e origens" (Editora Mandruvá).

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