A
palavra revolução vem do latim revolutio, que remete ao ato de trazer à
tona o que está embaixo, de girar, remover, transformar.
A etimologia é um ato revolucionário porque
traz à luz sentidos ocultos, cobertos pela rotina, pela preguiça mental, pelo
pragmatismo verbal e pelos oportunismos.
A etimologia é revolucionária porque não se
prende ao momento presente e contribui, por exemplo, para dar à palavra conservador
o direito à polissemia. O conservador que conserva coisas boas não é necessariamente
retrógrado. Pesquisando a origem das palavras, recuperamos o que escapou, conservamos na
memória o que a futilidade nos fez perder.
A propósito, futilidade relaciona-se ao
verbo latino fundere que significava soltar, e era usado pelos romanos tanto para
falar dos vasos rachados (vasos fúteis) que deixavam escorrer o seu conteúdo líquido,
quanto para a perda da vida: fundere vitam era sinônimo de expirar.
O estudo da etimologia é poético e, portanto,
revolucionário.
Mallarmé afirmava que fazer poesia era tratar
as palavras sem o rigorismo do uso. Há muito de poesia na busca das fontes, para entender
as evoluções e involuções das palavras.
A arbitrariedade da linguagem é um fato
lingüístico, contra o qual não há argumentos. Mas entender o como e o porquê das
palavras terem sido assim e agora serem outras, isso já é argumento etimológico. E os
argumentos etimológicos têm a "irresponsabilidade" das crianças que querem
descobrir o coração do relógio e ouvir a voz inaudível das bonecas de pano.
A etimologia tem muito da Emília de Monteiro
Lobato que, perante a realidade e a linguagem, quer revolucionar as coisas, endireitar o
mundo, refazer o dicionário.
No livro mais surrealista de Lobato, A Chave
do Tamanho, publicado em 1944, Emília transforma todas as pessoas em seres pequeninos
com o objetivo de acabar com a Segunda Guerra Mundial. E a sua revolução começa com uma
questão lingüística.
Dona Benta, olhando o fim do dia, exclama:
Que maravilhoso fenômeno é o
pôr-do-sol!
Mas Emília resolve encrencar:
Por que é que se diz
"pôr-do-sol"? Que é que o Sol põe? Algum ovo?
O Sol não põe nada, bobinha. O sol
põe-se a si mesmo - respondeu Dona Benta.
Então ele é o ovo de si mesmo. Que
graça!
E que desgraça quando o povo, esquecendo-se da
etimologia, condena-se a ficar mudo!
Gabriel Perissé é autor do recém-lançado livro
"Palavras e origens" (Editora Mandruvá).
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