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A arte de adivinhar o passado:
À luz da etimologia (1)


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Por Gabriel Perissé
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O passado é aquilo que não passa. É aquilo que permanece registrado pelas palavras e, sobretudo, no corpo das palavras.

A etimologia, ciência auxiliar da filosofia e da reflexão literária, mostra-nos a consistência de cada palavra e nos ajuda, como diria Clarice Lispector, a espanar a poeira que se acumula sobre a linguagem, e a desvirtua.

O uso banalizador da linguagem torna-a opaca, anêmica, vazia, insossa, inútil convenção a que obedecemos sem refletir. Mas quando a estudamos etimologicamente, vislumbramos coincidências e explicações. As palavras se rejuvenescem e brilham diante de nós.

Lendo a sua história, descobrimos se o que as palavras dizem é de fato o que desejamos dizer, e aprendemos como é necessário limpar nossos olhos para vê-las de novo, percorrer o caminho que nos leva às suas origens, adivinhar (adivinhar é dom divino...) como tudo começou.

Muitas das nossas desorientações se devem ao fato de não procurarmos o oriente, lugar onde nasce o sol da verdade, o étimo da palavra. Seríamos mais originais se nos guiássemos pelo sentido primeiro das expressões cotidianas. Lemos o jornal, ouvimos notícias, mas as palavras lidas e ouvidas permanecem neutralizadas pela rotina ou por nossa cegueira. Daí a importância do colírio etimológico!

A etimologia revê a palavra em sua radicalidade, denunciando falsas interpretações, desempoeirando séculos de mal-entendidos.

"Candidato", por exemplo, é uma palavra que, desgastada pelo uso, traz em si uma verdade que vale a pena recuperar. Vem do latim candidatus, isto é, vestido de branco (candidus). Na antigüidade, aquele que disputava um cargo público e precisava angariar votos vestia-se de branco para simbolizar sua pureza. É lógico, portanto, que exijamos de um candidato ou candidata que a sua vida, e não apenas as suas roupas, estejam limpas!

Outra palavra do âmbito político: demagogo. Dêmós, em grego, é povo. Demografia é o estudo estatístico das populações. Já a partícula agogós significa "aquele que conduz". A função do pedagogo, por exemplo, era levar o aluno à escola. Chamava-se demagogo, portanto, quem conduzia o povo. Demagogo era o líder popular em quem se depositavam as esperanças de uma nação. Com o tempo (e com os abusos), a palavra adquiriu conotação negativa, mas o certo mesmo seria votarmos em nossos mais competentes demagogos!

A etimologia é luz no túnel do tempo.

Gabriel Perissé é autor dos livros "Ler, pensar e escrever" (Ed. Arte e Ciência) e "O leitor criativo" (Omega Editora).

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