O passado é aquilo que não passa. É aquilo que permanece registrado pelas palavras e,
sobretudo, no corpo das palavras.
A etimologia, ciência auxiliar da filosofia e
da reflexão literária, mostra-nos a consistência de cada palavra e nos ajuda, como
diria Clarice Lispector, a espanar a poeira que se acumula sobre a linguagem, e a
desvirtua.
O uso banalizador da linguagem torna-a opaca,
anêmica, vazia, insossa, inútil convenção a que obedecemos sem refletir. Mas quando a
estudamos etimologicamente, vislumbramos coincidências e explicações. As palavras se
rejuvenescem e brilham diante de nós.
Lendo a sua história, descobrimos se o que as
palavras dizem é de fato o que desejamos dizer, e aprendemos como é necessário limpar
nossos olhos para vê-las de novo, percorrer o caminho que nos leva às suas origens,
adivinhar (adivinhar é dom divino...) como tudo começou.
Muitas das nossas desorientações se devem ao
fato de não procurarmos o oriente, lugar onde nasce o sol da verdade, o étimo da
palavra. Seríamos mais originais se nos guiássemos pelo sentido primeiro das expressões
cotidianas. Lemos o jornal, ouvimos notícias, mas as palavras lidas e ouvidas permanecem
neutralizadas pela rotina ou por nossa cegueira. Daí a importância do colírio
etimológico!
A etimologia revê a palavra em sua
radicalidade, denunciando falsas interpretações, desempoeirando séculos de
mal-entendidos.
"Candidato", por exemplo, é uma
palavra que, desgastada pelo uso, traz em si uma verdade que vale a pena recuperar. Vem do
latim candidatus, isto é, vestido de branco (candidus). Na antigüidade,
aquele que disputava um cargo público e precisava angariar votos vestia-se de branco para
simbolizar sua pureza. É lógico, portanto, que exijamos de um candidato ou candidata que
a sua vida, e não apenas as suas roupas, estejam limpas!
Outra palavra do âmbito político: demagogo. Dêmós,
em grego, é povo. Demografia é o estudo estatístico das populações. Já a partícula agogós
significa "aquele que conduz". A função do pedagogo, por exemplo, era levar o
aluno à escola. Chamava-se demagogo, portanto, quem conduzia o povo. Demagogo era o
líder popular em quem se depositavam as esperanças de uma nação. Com o tempo (e com os
abusos), a palavra adquiriu conotação negativa, mas o certo mesmo seria votarmos em
nossos mais competentes demagogos!
A etimologia é luz no túnel do tempo.
Gabriel Perissé é autor dos livros
"Ler, pensar e escrever" (Ed. Arte e Ciência) e "O leitor criativo"
(Omega Editora).
Dê a sua opinião sobre este texto |



 |