Escritor é aquele
que escreve.
Eis um daqueles óbvios ululantes que às vezes não
enxergamos.
As idéias do escritor são boas quando vão para o papel. E do
papel transbordam e nos transcendem, para cumprir seu papel em outras vidas... em outros
papéis.
Muitas pessoas ameaçam escrever, sonham em escrever, afirmam
de pés juntos que gostariam de escrever, avisam que num glorioso dia irão escrever...
mas não escrevem.
Contudo, o livro só vale se for escrito. E no livro só vale o
que estiver escrito. Se um escritor precisa explicar o que disse, por que o disse, ou por
que não disse o que pensou dizer... é porque o livro não se sustenta sozinho. Não
passou de um esboço. De uma tentativa louvável.
O livro é a concretização real do potencial de quem escreve.
Escrever não é promessa irrefletida, é missão, compromisso e realização. Escrever
não é desejo etéreo, mas fruto da dedicação de quem vai ao extremo de si mesmo.
Um dos professores mais produtivos que conheço é o professor
Jean Lauand, da USP, que está comemorando este mês 30 anos de ininterrupta atividade
intelectual, com muitos artigos, ensaios e livros, impressos e na internet (http://www.hottopos.com/4.htm#jean).
E o seu mérito não está só na quantidade (e na variedade de
idiomas em que publica seu trabalho), mas sobretudo na qualidade acadêmica de seus
textos, na comunhão (para alguns escandalosa) que consegue realizar entre Paulinho da
Viola e Tomás de Aquino, Santo Agostinho e futebol, cultura cristã e cultura islâmica.
Ebner, um pensador austríaco, dizia que o problema da
filosofia moderna é que as pessoas sonham com a verdade, em lugar de procurá-la
efetivamente, ilusão causadora desses terríveis divórcios entre cultura e ética, entre
beleza e bondade, e que levavam, por exemplo, um oficial nazista a ouvir, embevecido,
belas sinfonias depois de um dia de intenso "trabalho"...
Analogamente, há escritores que imaginam o seu texto mas não
se comprometem com a realidade real das palavras.
Há escritores que vivem no talvez, no quem sabe, no
possivelmente, paralisados pelo perfeccionismo, atitude mental inimiga da perfeição.
Há quase-escritores que não compreendem o mais elementar dos
princípios: para escrever é preciso escrever, sair de si mesmo e lançar-se no deserto
do papel.
Escrever para valer é um ato de coragem, de entrega, de amor.
Gabriel Perissé é autor dos livros
"Ler, pensar e escrever" (Ed. Arte e Ciência) e "O leitor criativo"
(Omega Editora).
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