Não sou profeta nem filho de
profeta, mas sei que as empresas, como toda instituição social, necessitam de uma
filosofia para sobreviverem.
Toda empresa já possui, implicitamente, uma filosofia, ou uma
pseudofilosofia, ou uma anti-filosofia. O problema, e a solução, está em tomar
consciência das idéias, dos parâmetros que movem as pessoas dentro de uma empresa.
Tomar consciência e, se for o caso, corrigi-los.
Não, não estou falando apenas em "ética profissional",
essa expressão mágica que pode ser usada irresponsavelmente e ocultar mil comportamentos
duvidosos.
Refiro-me a filosofia mesmo, a um sistema coerente de conceitos e de
convicções que configura um modo de olhar e pensar o mundo, um modo de conviver em
harmonia, uma forma de lutar pelos valores humanizantes, uma forma de atuar com sabedoria.
Conta-se que, certa vez, uma rainha perguntou ao poeta grego Simônides
(famoso por seus cursos de memorização) o que era mais importante na vida: ser rico ou
ser sábio?
O poeta respondeu: "Ser rico, pois vejo os sábios sempre baterem
à porta dos ricos".
Atribuem a um discípulo de Sócrates, o filósofo Antístenes (a quem
teriam relatado essa pequena história), o seguinte comentário: "Ah, sim, é verdade
que os sábios geralmente batem à porta dos ricos, e que os ricos dificilmente batem à
porta dos sábios. Mas para isso existe uma explicação: os sábios sabem que precisam
dos ricos para obterem recursos materiais, mas os ricos desconhecem as suas reais
necessidades".
Conversando recentemente com um famoso head hunter, entendi o
quanto as empresas, sobretudo as mais poderosas, necessitam bater à porta dos sábios.
Dizia-me ele que, no dia a dia das organizações, pensa-se pouco e fala-se demais, e que
muitos diálogos ainda estão baseados na "autoridade" do "eu mando e você
obedece", o que torna a vida da empresa simplesmente irracional.
Imagino um novo profissional, um profissional competente, que saiba
utilizar os recursos da informática, que saiba mover-se nos ambientes virtuais, e entenda
os paradigmas que para alguns são verdadeiros paradogmas da
economia... mas um profissional capaz de trazer para o seu cotidiano a reflexão pausada,
a crítica racional, a argumentação inteligente.
Imagino um profissional capaz de pensar e escrever com profundidade,
sem perder a agilidade que os tempos exigem.
Imagino um profissional capaz de promover um diálogo filosófico, produtivo
"produtivo" no real sentido da palavra.
Gabriel Perissé é autor dos livros
"Ler, pensar e escrever" (Ed. Arte e Ciência) e "O leitor criativo"
(Omega Editora).
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