Goethe
dizia que o ouvido é mudo, que a boca é surda, mas que os olhos podem ouvir e falar.
Os olhos bem treinados, além de ler, expressam
a beleza das coisas, e organizam o caos, e dão sentido ao disperso ou ao que parece
incoerente.
Se o analfabetismo é preocupante, pelo menos
tem uma vantagem: sabemos por que é preocupante, conhecemos os males que provoca, os
males que o provocam, e, portanto, os modos de erradicá-lo.
O pior analfabetismo, porém, é aquele que nos
impede de ver o que há de pior nesse mesmo analfabetismo. Esse analfabetismo é terrível
(e horrível), porque nega aos nossos olhos a capacidade de entender a essência, a
estrutura, a emergência, a exuberância da realidade circundante, e também da realidade
pessoal, da realidade biográfica de cada um.
O pior analfabeto é aquele que sabe ler... mas
não sabe ler o que lê.
É aquele que lê... mas não entende o que não
está escrito.
É aquele que lê... mas não sabe dizer por
que leu, se é que realmente leu aquilo que leu.
É aquele que lê... mas rejeita ser lido por
um livro, não aceita ser denunciado, por exemplo, por um poema:
Coração orgulhoso, tens pressa de
confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.
Não quero mais alfabetizar ninguém. Quero a
superalfabetização. Quero aprender e ensinar a leitura de todas a mais radical. Quero
que o leitor daquela estrofe de Drummond sinta seu coração orgulhoso e derrotista bater
mais forte.
Ler o silêncio no momento do estrondo. Ler o
absurdo com naturalidade. Ler a verdade na mentira. Ler as palavras invisíveis.
O superalfabetizado nascerá entre nós sem que
ninguém perceba a sua força. Com a inocência mais inocente, verá o rei nu, ouvirá o
réu mudo, saberá que quem riu primeiro riu de nervoso.
O superalfabetizado fala com os olhos. E sabe o
que ele diz?
O superalfabetizado ouve com os olhos. E sabe o
que ele escuta?
O superalfabetizado toca com os olhos. E sabe
se é tão frio?
O superalfabetizado saboreia com os olhos. E
sabe que gosto tem?
O superalfabetizado cheira com os olhos. E sabe
qual é o perfume?
Gabriel Perissé é autor dos livros LER,
PENSAR E ESCREVER e O LEITOR CRIATIVO
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