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A superalfabetização


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Por  Gabriel Perissé
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Goethe dizia que o ouvido é mudo, que a boca é surda, mas que os olhos podem ouvir e falar.

Os olhos bem treinados, além de ler, expressam a beleza das coisas, e organizam o caos, e dão sentido ao disperso ou ao que parece incoerente.

Se o analfabetismo é preocupante, pelo menos tem uma vantagem: sabemos por que é preocupante, conhecemos os males que provoca, os males que o provocam, e, portanto, os modos de erradicá-lo.

O pior analfabetismo, porém, é aquele que nos impede de ver o que há de pior nesse mesmo analfabetismo. Esse analfabetismo é terrível (e horrível), porque nega aos nossos olhos a capacidade de entender a essência, a estrutura, a emergência, a exuberância da realidade circundante, e também da realidade pessoal, da realidade biográfica de cada um.

O pior analfabeto é aquele que sabe ler... mas não sabe ler o que lê.

É aquele que lê... mas não entende o que não está escrito.

É aquele que lê... mas não sabe dizer por que leu, se é que realmente leu aquilo que leu.

É aquele que lê... mas rejeita ser lido por um livro, não aceita ser denunciado, por exemplo, por um poema:

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

Não quero mais alfabetizar ninguém. Quero a superalfabetização. Quero aprender e ensinar a leitura de todas a mais radical. Quero que o leitor daquela estrofe de Drummond sinta seu coração orgulhoso e derrotista bater mais forte.

Ler o silêncio no momento do estrondo. Ler o absurdo com naturalidade. Ler a verdade na mentira. Ler as palavras invisíveis.

O superalfabetizado nascerá entre nós sem que ninguém perceba a sua força. Com a inocência mais inocente, verá o rei nu, ouvirá o réu mudo, saberá que quem riu primeiro riu de nervoso.

O superalfabetizado fala com os olhos. E sabe o que ele diz?

O superalfabetizado ouve com os olhos. E sabe o que ele escuta?

O superalfabetizado toca com os olhos. E sabe se é tão frio?

O superalfabetizado saboreia com os olhos. E sabe que gosto tem?

O superalfabetizado cheira com os olhos. E sabe qual é o perfume?

Gabriel Perissé é autor dos livros LER, PENSAR E ESCREVER e O LEITOR CRIATIVO

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