Nota-se
um saudável despertar editorial por livros que pretendem iniciar o leitor nos caminhos do
conhecimento da filosofia e não só de uma vaga sabedoria em que, por vezes, os mais
espertos e menos sábios pontificam sobre temas tão amplos como a vida, o amor, a verdade
etc.
Trata-se de uma superação. Um pequeno mas
significativo salto de qualidade. Começamos a procurar um pouco mais de substância, um
pouco mais de seriedade. O livro Paixão pelo saber, por exemplo, tem sido bem
acolhido, e não é um livro fácil, embora o subtítulo uma breve história da
filosofia seja um elegante convite para quem não lê por falta de tempo...
Na realidade, o subtítulo original é mais
modesto: a very brief... Ou seja, é uma história brevíssima.
Brevíssima e apaixonante. A paixão nasce da
contemplação dessas mentes filosóficas e argutas, fontes de inquietação intelectual,
de busca, de anseio pelas respostas, de interesse vivo pelo "quê" das coisas,
ou mesmo pelo "quem" das coisas, como corrigia Guimarães Rosa, enigmaticamente.
O que as coisas são, qual a essência de tudo,
quem é o ser humano.
O livro menciona os autores clássicos, mas eu
gostaria de destacar um que é menos citado por aí, Maimônides, o sapientíssimo sábio
judeu que, no século XII, escreveu o Guia para os perplexos. Só o título,
belíssimo, já é uma tremenda tentação. E como não se deve combater esse tipo de
tentação, consegui uma edição francesa da obra... de 700 páginas, em que se opera um
amistoso diálogo entre a tradição hebraica, a ciência da época, Aristóteles e
Platão.
A propósito, voltando ao livro aqui resenhado,
as páginas sobre Platão são talvez as melhores. O inesquecível Sócrates não seria
inesquecível e muito menos seria Sócrates se não tivesse encontrado esse dedicadíssimo
porta-voz, ao mesmo tempo fiel e imaginativo, que registrou, embelezou e transformou as
conversas do mestre numa referência necessária para pensadores iniciantes ou já
maduros.
Knowledge itself is power
Conhecimento é poder, dizia o renascentista Francis Bacon. Poder perigoso,
perigosíssimo, se dissociado de um conhecimento ainda mais apaixonante, que consiste em
mostrar-nos que a força da inteligência não está em acorrentar a natureza, dissecar os
dilemas, solucionar os problemas com arrogância semi-divina, mas em abrir-se,
superlativamente, e acolher o mistério do mundo.
Paixão pelo saber, Civilização
Brasileira, 2001, 206 páginas.
Gabriel Perissé é autor dos livros LER,
PENSAR E ESCREVER e O LEITOR CRIATIVO
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