Se
alguém conhece algum livro sobre autocrítica, por favor, me indique autor e editora.
Temos aqui um tema que causa temor.
A mim também!
Esquecemos que somos seres perfectíveis, e que
graças a essa condição é natural que nos arrependamos do que fizemos de errado (ou de
menos certo) e procuremos melhorar.
Muita gente já leu aquele poema de Fernando
Pessoa (encarnado em seu heterônimo Álvaro de Campos), o poema em linha reta, modelo de
autoconsciência sem complacência: eu tenho sido ridículo, eu tenho sido covarde, eu
tenho sido caloteiro, eu tenho sido medíocre e vil.
Ah, como é fácil recomendar a autocrítica! E
como é difícil fazer a autocrítica ela mesma!
O discurso psicológico dominante enfatizou a
tal ponto a necessidade da auto-estima que temos receio de nos magoar. Faço de mim uma
imagem boa demais. "Eu me amo", dizia a letra de uma música brasileira. Se eu
não me valorizar, quem o fará por mim...?
Mas a autocrítica é o melhor caminho para a
auto-valorização.
O pensador alemão Otto Rank, escrevendo no
início do século passado sobre educação e psicologia, advertia que corremos, sim, o
risco de exercer sobre nós uma autocrítica anuladora, que produz sentimentos de
inferioridade, culpas absurdas, ânsias doentias de autopunição. Mas nem por isso
descartava a necessidade de uma saudável autocrítica.
A autocrítica é produtiva quando mantemos
diante dos olhos, dentro da cabeça e no fundo do coração um plano de construção
existencial e artística. Quem tem criança pequena em casa percebe seus esforços para
engatinhar, andar, correr, falar melhor, encorajar-se, crescer.
A autocrítica nos dá impulso para jogar fora
o que não condiz com o que queremos ser, abrindo espaço para vermos e sermos o que
devemos ser.
Gabriel García Márquez diz que podemos
conhecer um bom escritor não tanto pelo que publica mas pelo que joga no lixo: "se o
escritor se desfaz do que está escrevendo, está no bom caminho: o escritor tem de estar
convencido de que é melhor que Cervantes; senão acaba sendo pior do que na verdade é.
É preciso apontar para o alto e tentar chegar longe".
O grande artista é mais crítico com relação
às suas obras do que seus mais ferrenhos críticos conseguem ser.
A propósito, é esta autocrítica que faz dele
um grande artista.
Gabriel Perissé é autor dos livros LER,
PENSAR E ESCREVER e O LEITOR CRIATIVO
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