Um livro sem passado é um
livro sem futuro.
Um escritor sem passado é um escritor sem futuro.
Uma cultura sem passado não é cultura.
Porque do nada... nada vem.
Para escrever um texto que seja um presente para os leitores e que
faça o escritor presente, é preciso mergulhar as palavras nas terras férteis do
passado.
O passado, a propósito, é aquilo que não passou.
O passado é aquilo que ficou em forma de relato, de provérbio, mito,
axioma é tudo aquilo que está presente.
E o futuro é fruto do passado.
Escrevemos de memória.
Santo Agostinho, pensando na Santíssima Trindade, associava a memória
ao Pai. Não há filho sem pai. O pai é a memória do filho.
Num belíssimo poema de Florbela Espanca, "Folhas de Rosa", a
mulher está contemplando as prendas que um dia recebeu do amado, prendas que guardou em
segredo e que lhe fazem sentir o "perfume do outrora". São prendas, são
presentes que tornam a lembrança do amado uma realidade palpável:
Mas de todas as prendas, a mais rara,
Aquela que mais fala à fantasia,
São as folhas daquela rosa branca
Que a meus pés desfolhaste, aquele dia...
"Fazei isto em minha memória", pediu o Cristo aos seus
amigos, naquela última ceia.
Uma pessoa que não permanece em nossa memória deixou de existir.
Uma pessoa sem memória é uma pessoa sem passado e sem amigos.
E uma pessoa sem passado é sempre uma pessoa sem presente.
O ser humano é um esquecedor. Esquecemos quem nos criou, quem nos
amou, quem nos ensinou. Os deuses resolveram criar as musas para nos lembrarem o que é
mais importante.
As musas lembram o que é vital, e fazem do museu o lugar do reencontro
com nossa identidade.
As musas são muitas. Lembram-se delas?
Clio é a responsável pelos historiadores. Euterpe cuida dos músicos.
Melpômene inspira a confecção das tragédias. Terpsícore se encarrega dos dançarinos.
Urânia dirige o olhar dos astrônomos. Érato e Calíope são as musas dos poetas.
Polímnia ensina a retórica. Se você quiser aprender a meditar, recorra à musa Méleta.
E se estiver com a memória falha, peça ajuda a Mnema.
As musas são a música que faz a humanidade lembrar que é humana.
Quando esquecemos o que não poderíamos esquecer deixamos de existir.
Musas, voltem sempre!
Gabriel Perissé é autor dos livros LER,
PENSAR E ESCREVER e O LEITOR CRIATIVO
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