d
A necessidade de lembrar


promo_assine.gif (1734 bytes)

Por  Gabriel Perissé
f

Um livro sem passado é um livro sem futuro.

Um escritor sem passado é um escritor sem futuro.

Uma cultura sem passado não é cultura.

Porque do nada... nada vem.

Para escrever um texto que seja um presente para os leitores e que faça o escritor presente, é preciso mergulhar as palavras nas terras férteis do passado.

O passado, a propósito, é aquilo que não passou.

O passado é aquilo que ficou em forma de relato, de provérbio, mito, axioma — é tudo aquilo que está presente.

E o futuro é fruto do passado.

Escrevemos de memória.

Santo Agostinho, pensando na Santíssima Trindade, associava a memória ao Pai. Não há filho sem pai. O pai é a memória do filho.

Num belíssimo poema de Florbela Espanca, "Folhas de Rosa", a mulher está contemplando as prendas que um dia recebeu do amado, prendas que guardou em segredo e que lhe fazem sentir o "perfume do outrora". São prendas, são presentes que tornam a lembrança do amado uma realidade palpável:

Mas de todas as prendas, a mais rara,
Aquela que mais fala à fantasia,
São as folhas daquela rosa branca
Que a meus pés desfolhaste, aquele dia...

"Fazei isto em minha memória", pediu o Cristo aos seus amigos, naquela última ceia.

Uma pessoa que não permanece em nossa memória deixou de existir.

Uma pessoa sem memória é uma pessoa sem passado e sem amigos.

E uma pessoa sem passado é sempre uma pessoa sem presente.

O ser humano é um esquecedor. Esquecemos quem nos criou, quem nos amou, quem nos ensinou. Os deuses resolveram criar as musas para nos lembrarem o que é mais importante.

As musas lembram o que é vital, e fazem do museu o lugar do reencontro com nossa identidade.

As musas são muitas. Lembram-se delas?

Clio é a responsável pelos historiadores. Euterpe cuida dos músicos. Melpômene inspira a confecção das tragédias. Terpsícore se encarrega dos dançarinos. Urânia dirige o olhar dos astrônomos. Érato e Calíope são as musas dos poetas. Polímnia ensina a retórica. Se você quiser aprender a meditar, recorra à musa Méleta. E se estiver com a memória falha, peça ajuda a Mnema.

As musas são a música que faz a humanidade lembrar que é humana.
Quando esquecemos o que não poderíamos esquecer deixamos de existir.
Musas, voltem sempre!

Gabriel Perissé é autor dos livros LER, PENSAR E ESCREVER e O LEITOR CRIATIVO

Dê a sua opinião sobre este texto



banner.gif (1362 bytes)




non_pp2.gif (5927 bytes)










 

Copyright © 1998-2004 Correio da Cidadania - Todos os direitos reservados
Versão eletrônica - www.correiocidadania.com.br