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Borges clarividente


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Por  Gabriel Perissé
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A cegueira de um escritor é algo terrível. Sobretudo quando o escritor se considera mais propriamente leitor do que escritor, como no caso de Jorge Luis Borges, nome que nenhuma história da literatura poderá esquecer ao esquadrinhar o século XX.

Borges ficou cego mas não perdeu a clarividência. Durante toda a vida, sua missão era ver e fazer ver outras realidades dentro da realidade, num labirinto espelhado que ele construía com segurança, com maestria, com amor.

Uma das primeiras citações isoladas que li de Borges deixou-me para sempre impressionado, e foi a isca que me levou para os seus contos. Na citação, dizia serem os textos teológicos de um São Tomás de Aquino o que de melhor a literatura fantástica tinha produzido. Abria-se para mim, neste momento, a porta da imaginação e da liberdade.

Um grande escritor é aquele que inaugura um universo paralelo e nele nos faz entrar, cativando-nos, transformando-nos. O universo borgiano é cativante e transformador. Mas não só o universo ficcional, no sentido estrito. As idéias estéticas de Borges também compõem um mundo à parte em que o leitor, ao visitá-lo, respira ares (buenos aires...) que o tornam mais atento, mais lúcido.

Especialmente oxigenador, o livro Esse ofício do verso, publicado no ano passado, reúne seis palestras ministradas por Borges na Universidade de Harvard, entre 1967 e 1968.

O tom coloquial, suave, cortês, somado a uma paixão indisfarçável pela poesia, pela cultura, conferiu às palestras um clima de acessível inteligência que agrada em si mesmo, entendamos ou não a fundo as intuições e as verdades do mestre.

Em primeiro lugar, é importante frisar que, para Borges, poesia abarca teatro e épica, o que, de resto, é a pura verdade. Para além de uma simples linha interrompida, o verso é aqui o modo mesmo de a literatura acontecer. O verso aqui é arcaico e revelador, é a captação da visão mítica das coisas. E é também o jogo com as palavras, e a superação do prosaísmo embrutecedor.

Fazer poesia, dizia Mario Quintana, é fugir para a vida. Borges é bem esse fugitivo. E do seu exílio em meio aos homens, ele estende a mão erudita (mas nem um pouco arrogante), a fim de que nos sintamos irmanados como amantes incondicionais da beleza.

Esse ofício do verso, Cia. das Letras, 2000, 159 páginas.

Gabriel Perissé é autor dos livros LER, PENSAR E ESCREVER e O LEITOR CRIATIVO

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