Harold Bloom é um escritor niilista, cético, um pouco avesso ao convívio humano. Mas
sua paixão pelos livros o redime.
Sim, ter amigos humanos traz consigo uma série
de obrigações, decepções, medos e dores que o hábito da leitura não acarreta. Já os
livros que adotamos como amigos não matam, não mentem, não fingem, não morrem, não
chutam nossas canelas. Ou talvez façam tudo isso de modo mais espiritual, mais
silencioso.
Admirador obsessivo de Shakespeare, de Oscar
Wilde, de Maupassant, o autor de Como e por que ler (obra lançada este ano) é um
verdadeiro personagem desses escritores. Sua fala, seu modo de pensar, sua maneira de
encarar o mundo são a mescla do que aqueles e outros escritores disseram. E isso é o que
se chama ler.
Ler para valer.
Assimilar o que se leu a ponto de ser o que se
leu: Harold Shakespeare, Harold Wilde...
A definição define o definidor. À medida que
Harold Bloom analisa os contos, os poemas, os romances que leu (para explicar como lê e
dizer por que o faz), também se define como leitor.
Um leitor voraz, inteligente, sutil. Suas
conhecidas polêmicas com a crítica nascida de uma certa mentalidade universitária
norte-americana devem permanecer agora em segundo, em último plano. O importante é
deixar-se guiar por esse louco, esse apaixonado pelos livros, deixar-se guiar pela certeza
absurda de que a literatura cria a realidade, de que as palavras montam os pedaços
dispersos de nossa visão de mundo.
A rigor, terminada essa leitura, nós, leitores
de Bloom, também devemos nos sentir outros, sem deixar de ser nós mesmos: Gabriel Bloom,
Ana Bloom, Augusto Bloom...
Por que ler?
Para administrar a solidão mais profunda,
fruto da consciência metafísica de nossa condição terrestre.
E como ler?
Da única maneira que realmente valha a pena. E
a pena, neste caso, é a pena com que os escritores escreveram!
Todo escritor sonha encontrar um leitor voraz,
inteligente, sutil, capaz de dedicar-se à arte de reler.
Reler é uma palavra que se pode ler de frente
para trás e de trás para a frente, sem deturpá-la: R E L E
R.
Pequeno palíndromo que guarda uma lição
impagável a melhor maneira de ler é ler sempre.
Como e por que ler, Objetiva, 2001, 274
páginas.
Gabriel Perissé é autor dos livros LER,
PENSAR E ESCREVER e O LEITOR CRIATIVO
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