No dia 28 de março comemoramos o Dia do Revisor.
Tal como o goleiro no futebol, o revisor, na
editora, é aquele que evita o pior (o gol adversário, o erro de digitação, a
escorregada gramatical, a incoerência que ninguém percebeu etc.).
No entanto, é também o revisor quem mais
sofre com as derrotas de um texto. Ele é o último homem (ou a última mulher) a ler o
livro antes da fase de impressão gráfica, quando não há retorno...
Monteiro Lobato dizia que a tarefa do revisor
era das mais ingratas. Que o erro ou a falha se escondiam durante o processo de
confecção do livro para, depois de tudo pronto, aparecer na primeira página aberta,
como um saci danado, pulando, debochando do revisor.
O revisor é um caçador de distrações. Uma
de suas maiores alegrias (em que há uma pitada de vaidade) é encontrar deslizes do
autor, perceber as gralhas que ninguém viu antes, corrigir detalhes que iam passar
despercebidos.
O revisor revisa com amor.
O revisor sai de manhã, caneta em punho, em
busca de verbos mal conjugados e vírgulas fugitivas.
O revisor revisa com dor.
O revisor chega em casa, à noite, com o
coração cheio de parágrafos amputados e tópicos frasais remendados.
O revisor revisa com ardor.
O revisor enfrenta moinhos de vento que de fato
moem o vento de palavras que o vento não leva.
Madrugadas insones, manhãs e tardes quentes,
noites chuvosas, o revisor vai pulando as linhas e entrelinhas do texto em busca das
ciladas armadas sabe Deus por quem.
O revisor entrega o seu trabalho bem suado e
abençoado. Recebe as moedas de prata que são, na verdade, moedas de ouro. Recolhe seus
instrumentos de caça, enxuga o rosto, sorri. Sabendo que o autor poderá reclamar de suas
intervenções, que poderá referir-se ao revisor, gritando: quem mexeu no meu texto?!
O mérito da frase perfeita é do autor.
O crime do erro cometido será do revisor.
O revisor, porém, não se considera um
injustiçado. O revisor vitimista abandonou a profissão no primeiro dia. O verdadeiro
revisor, como o goleiro no futebol, sabe que nasceu para ficar ali, na pior posição de
todas, para agarrar centenas de bolas difíceis e, talvez, deixar passar a mais fácil de
todas.
Oços do ofíssio.
Gabriel Perissé é autor dos livros LER,
PENSAR E ESCREVER e O LEITOR CRIATIVO
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