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A virtude de ensinar


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Por  Gabriel Perissé
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Com tradução e comentários de Luiz Jean Lauand (professor titular da Faculdade de Educação da USP), a Martins Fontes acabou de publicar uma seleção de textos de Tomás de Aquino sobre educação e ética.

Uma das características menos conhecidas e no entanto mais definidoras do melhor pensamento medieval é o diálogo. Para Tomás, ensinar é dialogar. A fé dialoga com a razão. A realidade com a memória. O presente com o passado. A heresia com a ortodoxia. O cristão com o pagão. O homem com Deus.

Desprezar esta característica fundamental da obra tomasiana é não entender a história da inteligência ocidental, vivida por um de seus personagens mais otimistas. A segurança com que Tomás encara os problemas filosóficos e teológicos não nascia da arrogância, mas de uma confiança (jamais fanática) na razão iluminada pelo amor de Deus.

O ser humano, criatura especial neste mundo de Deus, consegue inteligir a realidade em seus diferentes níveis. A realidade é inteligível. A admiração não desemboca em pura perplexidade ou em posições rígidas que o racionalismo adorava fomentar. A admiração leva a constatações surpreendentes, e a novas ocasiões de renovada admiração.

Novas ocasiões de renovada admiração porque a realidade, inteligível, é inesgotável. Duas perguntas respondidas provocam dez outras perguntas.

As perguntas que fazemos são portas e janelas que se abrem para outras janelas e portas. Não estamos emparedados. A rua tem saída. O mundo do conhecimento não tem porteiras.

As perguntas são as de sempre: o que é educar? Quem está apto para ensinar? Como pode o homem chegar à verdade? O que é o mal? Qual a força dos hábitos em nossa conduta? Como "funcionam" essas "coisas" terríveis como a vaidade ou a inveja?

A virtude de ensinar pode ser um caminho de respostas sintetizadoras. O homem que ensina precisa combater em si as inclinações que o desintegram como ser humano. O pecado, numa linguagem menos assustadora (mas até muito mais preocupante), é tudo aquilo que nos faz ser menos humanos, menos plenos, inferiores à nossa própria vocação para a completude.

Assim, ser mestre não é apenas transmitir conhecimentos, mas tornar-se um exemplo vivo da eficácia existencial da verdade.

Embora tenhamos muitas falhas que nos impedem de aprender e ensinar melhor, talvez o maior pecado, neste contexto, seja a inveja.

O professor que sofre de inveja — etimologicamente, inveja é "invisão", incapacidade para ver o bem do outro e com isso se alegrar — é infra-professor, jamais sentirá a sala de aula como um vestíbulo para o céu.

Sobre o ensino e os sete pecados capitais, Martins Fontes, 2001.

Gabriel Perissé é autor dos livros LER, PENSAR E ESCREVER e O LEITOR CRIATIVO

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