Com tradução e comentários de Luiz Jean Lauand (professor titular da Faculdade de
Educação da USP), a Martins Fontes acabou de publicar uma seleção de textos de Tomás
de Aquino sobre educação e ética.
Uma das características menos conhecidas e no
entanto mais definidoras do melhor pensamento medieval é o diálogo. Para Tomás, ensinar
é dialogar. A fé dialoga com a razão. A realidade com a memória. O presente com o
passado. A heresia com a ortodoxia. O cristão com o pagão. O homem com Deus.
Desprezar esta característica fundamental da
obra tomasiana é não entender a história da inteligência ocidental, vivida por um de
seus personagens mais otimistas. A segurança com que Tomás encara os problemas
filosóficos e teológicos não nascia da arrogância, mas de uma confiança (jamais
fanática) na razão iluminada pelo amor de Deus.
O ser humano, criatura especial neste mundo de
Deus, consegue inteligir a realidade em seus diferentes níveis. A realidade é
inteligível. A admiração não desemboca em pura perplexidade ou em posições rígidas
que o racionalismo adorava fomentar. A admiração leva a constatações surpreendentes, e
a novas ocasiões de renovada admiração.
Novas ocasiões de renovada admiração porque
a realidade, inteligível, é inesgotável. Duas perguntas respondidas provocam dez outras
perguntas.
As perguntas que fazemos são portas e janelas
que se abrem para outras janelas e portas. Não estamos emparedados. A rua tem saída. O
mundo do conhecimento não tem porteiras.
As perguntas são as de sempre: o que é
educar? Quem está apto para ensinar? Como pode o homem chegar à verdade? O que é o mal?
Qual a força dos hábitos em nossa conduta? Como "funcionam" essas
"coisas" terríveis como a vaidade ou a inveja?
A virtude de ensinar pode ser um caminho de
respostas sintetizadoras. O homem que ensina precisa combater em si as inclinações que o
desintegram como ser humano. O pecado, numa linguagem menos assustadora (mas até muito
mais preocupante), é tudo aquilo que nos faz ser menos humanos, menos plenos, inferiores
à nossa própria vocação para a completude.
Assim, ser mestre não é apenas transmitir
conhecimentos, mas tornar-se um exemplo vivo da eficácia existencial da verdade.
Embora tenhamos muitas falhas que nos impedem
de aprender e ensinar melhor, talvez o maior pecado, neste contexto, seja a inveja.
O professor que sofre de inveja
etimologicamente, inveja é "invisão", incapacidade para ver o bem do outro e
com isso se alegrar é infra-professor, jamais sentirá a sala de aula como um
vestíbulo para o céu.
Sobre o ensino e os sete pecados capitais,
Martins Fontes, 2001.
Gabriel Perissé é autor dos livros LER,
PENSAR E ESCREVER e O LEITOR CRIATIVO
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