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Cabeça feita


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Por  Gabriel Perissé
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Para mim, fazer a própria cabeça significa construir um sistema pessoal de convicções.

Este trabalho de construção intelectual é um dos mais difíceis, porque, sem perceber, podemos apenas repetir frases que outros nos disseram, e pensar que, assim, estamos pensando...

É verdade que a educação se inicia na imitação. Desde crianças, queremos reproduzir as palavras, os gestos, os comportamentos de pais e educadores. Na adolescência, repudiamos modelos e copiamos outros... E depois, na maturidade, a tendência é imitarmos a nós mesmos...

Contudo, há imitações criativas e imitações pobres, há imitações originais e imitações servis, há imitações inéditas e imitações imitativas demais.

O grande segredo do auto-educar-se, do auto-formar-se, é saber administrar as influências que recebemos, e combiná-las de modo que nasça em nós o que de fato podemos ser.

Quem terá inventado o café com leite? Porque não existe uma fruta que dê café com leite, nem uma vaca de cujas tetas saia a mistura pronta. Foi preciso que alguém, contando com o acaso, com a necessidade ou com a pesquisa, juntasse pela primeira vez na história das misturas um líquido e outro na mesma xícara.

Criar uma convicção café-com-leite, que reúna duas realidades distantes numa nova composição, é realmente contribuir para o jogo dos debates, na busca de soluções inventivas, de saídas inesperadas, de caminhos revolucionários.

Vamos procurar o café num livro sobre filosofia e o leite na propaganda de um banco.

Ou vamos procurar o café num fato histórico e o leite num verso de Shakespeare.

Ou vamos procurar o café numa intuição poética e o leite nas contribuições mais recentes da genética.

Ou vamos procurar o café em dados estatísticos sobre a educação brasileira e o leite nas páginas de algum texto de Martin Heidegger.

Ou vamos procurar o café numa passagem bíblica e o leite num site da Internet.

Enfim, o importante é ter a coragem de misturar... e, sobretudo, de beber a mistura para ver se foi bem feita, se é preciso acrescentar açúcar ou um terceiro elemento, ou colocar uma pedra de gelo... ou deixar alguns minutos no microondas.

Fazer a própria cabeça, pensar com autonomia, com vontade e capacidade de recriar a realidade.

E criando um menu pessoal de novas bebidas, sempre acrescentar uma gota de vinho, porque, como diziam os antigos, in vino veritas.

Gabriel Perissé é autor dos livros LER, PENSAR E ESCREVER e o recém-lançado O LEITOR CRIATIVO

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