Para mim, fazer a própria cabeça significa construir um sistema pessoal de convicções.
Este trabalho de construção
intelectual é um dos mais difíceis, porque, sem perceber, podemos apenas repetir frases
que outros nos disseram, e pensar que, assim, estamos pensando...
É verdade que a educação se inicia na
imitação. Desde crianças, queremos reproduzir as palavras, os gestos, os comportamentos
de pais e educadores. Na adolescência, repudiamos modelos e copiamos outros... E depois,
na maturidade, a tendência é imitarmos a nós mesmos...
Contudo, há imitações criativas e
imitações pobres, há imitações originais e imitações servis, há imitações
inéditas e imitações imitativas demais.
O grande segredo do auto-educar-se, do
auto-formar-se, é saber administrar as influências que recebemos, e combiná-las de modo
que nasça em nós o que de fato podemos ser.
Quem terá inventado o café com leite? Porque
não existe uma fruta que dê café com leite, nem uma vaca de cujas tetas saia a mistura
pronta. Foi preciso que alguém, contando com o acaso, com a necessidade ou com a
pesquisa, juntasse pela primeira vez na história das misturas um líquido e outro na
mesma xícara.
Criar uma convicção café-com-leite, que
reúna duas realidades distantes numa nova composição, é realmente contribuir para o
jogo dos debates, na busca de soluções inventivas, de saídas inesperadas, de caminhos
revolucionários.
Vamos procurar o café num livro sobre
filosofia e o leite na propaganda de um banco.
Ou vamos procurar o café num fato histórico e
o leite num verso de Shakespeare.
Ou vamos procurar o café numa intuição
poética e o leite nas contribuições mais recentes da genética.
Ou vamos procurar o café em dados
estatísticos sobre a educação brasileira e o leite nas páginas de algum texto de
Martin Heidegger.
Ou vamos procurar o café numa passagem
bíblica e o leite num site da Internet.
Enfim, o importante é ter a coragem de
misturar... e, sobretudo, de beber a mistura para ver se foi bem feita, se é preciso
acrescentar açúcar ou um terceiro elemento, ou colocar uma pedra de gelo... ou deixar
alguns minutos no microondas.
Fazer a própria cabeça, pensar com autonomia,
com vontade e capacidade de recriar a realidade.
E criando um menu pessoal de novas bebidas,
sempre acrescentar uma gota de vinho, porque, como diziam os antigos, in vino veritas.
Gabriel Perissé é autor dos livros LER, PENSAR E
ESCREVER e o recém-lançado O LEITOR CRIATIVO
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