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A nuvem e a tempestade


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Por  Gabriel Perissé
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Albert Ryder, o impressionante pintor expressionista norte-americano — cujos quadros vale a pena admirar —, disse certa vez: "De que adianta uma nuvem negra, muito bem feita do ponto de vista da forma e da cor, se a tempestade não estiver ali?"

Sua pergunta refere-se ao fato de que nem sempre a ânsia da perfeição detalhista está a favor ou a serviço da realidade. O perfeccionismo é o caminho mais curto (ou até mais longo) para o fracasso. A autenticidade de uma pintura, de uma palavra, de uma vida nem sempre necessita de um "acabamento" que pode ser um mero... adorno.

De que adianta uma aula burocraticamente, didaticamente planejada, se o conhecimento não estiver ali?

De que adianta um poema rimaticamente, ritmicamente, estroficamente impecável, se a poesia não se revelar ali?

De que adianta uma refeição culinariamente apurada, se o amor não fumegar ali?

De que adianta um relógio pontualmente pontual, se a saudade não tic-taquear ali?

De que adianta um hino nacional musicalmente muito bem tocado, se o patriotismo não flamejar ali?

De que adianta uma interpretação teatral tecnicamente irreprovável, se a dor ou a alegria de viver não sangrarem ali?

De que adianta um computador informaticamente avançadíssimo, se a inventividade humana não teclar ali?

De que adianta um argumento filosófico retoricamente imbatível, se a verdade não pulsar ali?

De que adianta um rito religioso liturgicamente divinal, se Deus não sussurrar ali?

De que adianta um programa de tv ibopemente elogiado, se a arte não estrear ali?

De que adianta um apartamento transmodernamente mobiliado, se a harmonia não morar ali?

De que adianta uma empresa lucrativamente conduzida, se o respeito ao humano não trabalhar ali?

De que adianta uma partida de futebol futebolisticamente perfeita, se a genialidade do gol não jogar ali?

De que adianta uma tese de doutorado bibliograficamente, metodologicamente, universitariamente aprovada, se a inteligência não brilhar ali?

Porém, se a inteligência, se a genialidade e o respeito, se a harmonia e a arte, se Deus e a verdade, se a inventividade e a dor, se a alegria e o patriotismo, se a saudade e o amor, se a poesia e o conhecimento, enfim, se a tempestade estiver ali, não nos iludamos de novo: é muito bom que a nuvem negra, detalhadamente negra, também ali esteja.

Gabriel Perissé é autor dos livros LER, PENSAR E ESCREVER e o recém-lançado O LEITOR CRIATIVO

Internet:
www.escoladeescritores.org.br
correio eletrônico
perisse@uol.com.br

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