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Por Gabriel
Perissé |
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Uma voz original, uma poesia original precisa ter duas qualidades: visão e coragem. Visão é muito mais do que objetivo. Visão é opção. É maneira especial de enxergar a mesma coisa que todo mundo vê, mas captando aquilo que todo mundo não vê. É ver aquilo que só você pode ver porque só você pode ver aquilo que só você pode ver... Coragem, por outro lado, é muito mais do que dizer aquilo que se vê. Coragem é amor. É maneira pessoal de não saber jamais o que é ridículo, inferior, passageiro, incoerente. É sair por aí com lenço e com documento, lenço limpo e documento atualizado, mas tudo com a naturalidade de um mendigo, de um mendigo desses, sábios, que conversam com Deus e pensamos que estão loucos. Visão e coragem vêm uma ao lado da outra: a coragem empurrando a visão e a visão empunhando a coragem. Uma nasceu para a outra. Uma nasceu da outra. Manoel de Barros tem visão, tem coragem. Coragem de ser poeta com visão, e visão corajosa para ver as coisas manoelmente barroso. Ver e fotografar que é o tema e o modo de seu novo livro de poemas, Ensaios fotográficos, poesia descabelada porque está a favor do contra-vento e vai ventando, violentamente doce. Para fotografar é preciso ter coragem de pegar ângulos desprezados que parecem desfocar a visão. Manoel de Barros faz de tudo, até fotografar perdão, até fotografar perfume, que é a sinestesia pura, uma vez que todas as sinestesias são a sensibilidade em ação. Um dos poemas mais impressionantes em sua simplicidade e ousadia diz que o autor fez doutorado de teologia em formigas, porque viu Deus nesses pontinhos que cobrem a face da terra. Outro momento é quando o poeta diz que aprendeu o idioma inconversável das pedras, dando continuidade (e renovando-a, claro) à tradição cabralina-rosiana-drummondiana da visão poética brasileira. Há também aquele verso, ou uma coisa parecida a verso, em que Manoel lembra a mãe avaliando o poeta do seu filho, e dizendo, assustada, profética: "agora você vai ter que assumir as suas irresponsabilidades." Porém, tudo isso, dito desse jeito, agora, aqui, nem de longe permite ver como a poesia deste livro ficou legal. Porque a poesia ficou legal, sim. Bem legal. Ensaios fotográficos, Record, 2000, 66 páginas. Gabriel Perissé é autor dos livros LER, PENSAR E ESCREVER e o recém-lançado O LEITOR CRIATIVO Internet: |
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