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Por Gabriel
Perissé |
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Uma amostra desse diálogo são as cartas que enviou ao cardeal Carlo Maria Martini (possível sucessor do papa atual) e foram por este respondidas. Diálogo de alto nível entre pessoas que se respeitam como intelectuais e seres humanos. O principal tema das cartas (reunidas num livro agora lançado) é a viabilidade de uma moral sem fé num mundo secularizado, à margem do dogma cristão, mas ainda um mundo carente do sagrado. Carlo Martini defende a visão católica na sua clave mais ortodoxa e moderna, orientado por uma reflexão sem tradicionalismos irritantes ou progressismos superficiais. É tal sua liberdade de espírito que chega a citar Hans Küng, sabidamente inimigo figadal do Vaticano. Umberto Eco, extremamente gentil com o seu interlocutor, esforça-se por apresentar uma ética pessoal, independente, baseada em sua erudição e sensibilidade, mas também sem aquela estranha necessidade que alguns têm de exigir da Igreja que sancione aquilo que condena. O bom senso de Eco diz o seguinte: se não quero que a Igreja mande em minha vida para que eu precisaria da aprovação da Igreja com relação a temas em que ela já se definiu, como no caso do casamento entre homossexuais, do aborto ou da ordenação sacerdotal das mulheres? Mais tomista que muitos teólogos católicos, Umberto Eco reflete e pergunta, procurando um modus vivendi filosófico que possa substituir a proposta católica sem prejuízo dos grandes anseios humanistas. O curioso (e isso poderia ser interpretado como uma derrota do pensamento não-religioso) é que as palavras finais de Eco tornam-se aceitáveis, até para o cardeal Martini: "Este homem, para encontrar coragem para esperar a morte, tornou-se forçosamente um animal religioso, aspirando construir narrativas capazes de fornecer-lhe uma explicação e um modelo (...). E entre tantas que consegue imaginar (...) tem, em um momento determinado, a força religiosa, moral e poética de conceber o modelo de Cristo, do amor universal." Em que crêem os que não crêem?, Record, 2000, 156 páginas. Internet: |
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